[image ALT: Grande parte do meu site será inútil para você, se você tem as imagens desligadas!]
mail:
Bill Thayer

[image ALT: Cliccare qui per una pagina di aiuto in Italiano.]
Italiano

[Link a uma série de páginas de ajuda]
Ajuda
[Link para cima]
Para cima
[Link para a minha página de acolhimento]
Home

[ALT da imagem: link para a seção anterior]
Capítulo 10

Esta página reproduz um capítulo de
Formação Histórica do Brasil
de
João Pandiá Calógeras

Companhia Editora Nacional
São Paulo, 1966

O texto é de domínio público,
exceto para meus anotações.

Esta página foi cuidadosamente revisada
e la creio livre de erros.
Se você encontra um erro, porém,
por favor me avise!


[ALT da imagem: link para a próxima seção]
Capítulo 12

p226 Capítulo XI

Guerras do Uruguai e do Paraguai

A guerra de Rosas havia obedecido ao sentimento, geral e íntimo, de que as agitações platinas tinham de terminar: o Uruguai estava arruinado; o Brasil tinha a percepção nítida de perigo da proximidade demasiada de um vulcão na fronteira do Rio Grande do Sul, explosivo e belicoso; Entre Rios e Corrientes viam‑se paralisados em seu progresso pelos tumultos incessantes da Confederação.

144. Atritos precursores. Erros recíprocos de compreensão. — A diplomacia conjunta dos adversários de Buenos Aires havia consolidado, fundindo‑os, os elementos desconexos, e constituído um bloco de bandos guerrilheiros sem alcance. Venceram em Caseros, e logo trataram de lançar os novos alicerces de um edifício de paz.

Faltou, infelizmente, um elemento capital a tal obra consolidadora: a morte prematura do geral Garzón. Embora fôsse blanco, gozava da confiança generalizada de todos os uruguaios sem distinção partidária, e, provàvelmente, teria revelado sua capacidade para pôr têrmo a tôdas as causas internas de dissídio.

Morto êle, não mais seria possível cuidar em fusionarem blancoscolorados. amontavam‑se os políticos em um espaço comum, justapostos mais do que fundidos ou harmonizados em um agrupamento de alvos idénticos. Desde logo, tal situação se manifestou ao se tratar da escolha do nôvo candidato à presidência vaga.

p227 A lógica exigia uma seleção vinda do grupo vencedor, colorado, e tal era também o modo de pensar tanto do Brasil como de Entre Rios. Nesse partido, porém, não houve meio de se chegar a acôrdo quanto a qualquer de seus membros, tantas eram as rivalidades intestinas. Assim, um blanco teve de ser o eleito, em 1852, D. Juán Francisco Giró. Tôdas as cambiantes da opinião o haviam sufragado, embora na Assembléia existisse uma pequena maioria blanca.

Começou criando dificuldades com o Império, por causa dos tratados de 1851, contra a vontade de Urquiza e do próprio Brasil, e contra as vistas do partido colorado. Assim é que manifestava sua opinião sôbre a ilegalidade do govêrno da Defesa de Montevidéu. Era pròpriamente desafiar aos vencedores colorados. Não se revelou o presidente à altura da situação.

Não melhoraram as circunstâncias, antes se tornaram piores, e na vida política do país as relações partidárias se mostravam muito tensas. No Exército, a maioria dos quadros oficiais era colorada, e uma tentativa de organizar um Milícia Nacional, na qual se pudessem concentrar elementos de outro matiz político, falhou: terminou em conflito, combatendo‑se soldados e milicianos nas ruas da capital. Estava anulada a autoridade de Giró, e após uma curta demora de dois ou três meses, na qual em vão procurou reconquistar a fôrça moral que havia perdido, êle se sentiu incapaz de fazer face à situação ameaçadora e perigosa assim criada. Fugiu, e asilou‑se na legação francesa, a 24 de setembro de 1853.

Formou‑se um triunvirato para governar o Estado, incluindo o velho e famoso chefe dos Trinta-e‑Três, Lavalleja; dêle fazia parte também Frutuoso Rivera, exilado no Brasil e o coronel D. Venâncio Flôres, o chefe dos colorados. Em outubro de 1853, Lavalleja morria; Rivera, em viagem de volta para Montevidéu, faleceu em janeiro de 1854. Flôres, destarte, ficava sòzinho, como ditador, e foi eleito presidente pelo prazo de dois anos, até 1856.

Embora subdividida ainda em grupos reduzidos, a opinião pública já não era representada pelos blancos de Oribe, nem pelos colorados da defesa de Montevidéu. Novas dicotomias haviam retalhado os antigos arraiais. Um terceiro partido surgira, que se apelidava de conservador, com chefes moderados de p228ambas as organizações históricas. Subira tanto a desordem que Montevidéu solicitou a intervenção do Brasil, sob a forma de um subsídio mensal e da presença na capital de uma divisão brasileira, contando pouco mais de 5 000 homens.

Estavam por demais agitados os espíritos para que consentissem se acalmassem as paixões. Em agôsto de 1855, D. Venâncio foi apeado do poder, e um nôvo govêrno se formou de elementos coligados dos conservadores, independentes e de blancos. Apesar de fundidos, eram apenas uma minoria, e Flôres enviou sua renúncia à Assembléia.

145. A anarquia uruguaia. — Seguiu‑se uma fase de agitações incessantes. Da eleição de Giró, em março de 1852, à escolha regular e legal de Gabriel Antônio Pereira, em março de 1856, num intervalo de quatro anos portanto, haviam sucedido na presidência dois constitucionais, Giró e Flôres; três ditaduras, as do Triunvirato, de Flôres e de Lamas, e dois governos internos, dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Três revoluções tinham explodido no período intermediário: em 1853, e em 1855, em agôsto e em novembro. A situação resultava intolerável.

As tropas imperiais, chamadas para pacificarem o país em 1854, eram impotentes para o fazerem, e tiveram de ser retiradas em 1855. Talvez tivessem feito mais mal do que bem, não por sua conduta, que havia sido boa, mas pela exaltação levada por sua presença aos sentimentos partidários. Esta era a conseqüência do grande êrro, corrente entre a maioria dos uruguaios, de estarem êstes convencidos de que o Império nutria, no Rio da Prata, desígnios conquistadores.

Não se tinham convencido, ou mesmo não se mostravam a par, de que, desde 1828, tôdas as tendências imperialistas mantidas por D. João VI e seu filho, o primeiro Imperador do Brasil, haviam sido postas de lado; que a política lindeira dos gabinetes do Rio constituía a aplicação firme e invariável de um só princípio, o uti possidetis, cuja primeira manifestação foram os tratados de Utrecht, de 1713‑15, e sempre observado em todos os demais tratados internacionais. Conseqüência evidente, as exigências brasileiras nunca se manifestaram variáveis: o que elas eram em 1821, continuaram a ser desde 1828 até hoje.

p229 Mas em um ponto, é justo dizer, as queixas uruguaias estavam plenamente provadas, nem só quanto aos têrmos do tratado de 1851, mais também no espírito tacanho com que eram aplicadas as suas estipulações: a posse exclusiva e a utilização das águas da lagoa Mirim e do rio Jaguarão, onde nem uma canoa de dois remos, nem uma jangada poderia ser usada se pertencesse a uruguaios, e tal procedimento das autoridades imperiais dava origem a inúmeros vexames e conflitos. Pena é confessar, para nós brasileiros, que tal situação durou até 1909, quando um nôvo acôrdo foi assinado, obedecendo ao espírito culto e liberal do professor do Brasil, Nilo Peçanha, e à visão superior e política do Barão do Rio Branco, como secretário de Estado. Só então foi apagada de nosso Código de Relações Externas essa grande prova de êrro e de iniqüidade de nossa parte.

Em abono da verdade, deve ser dito que militavam boas razões para induzirem em tais eivas os redatores dêsses documentos: os distúrbios dominantes anteriormente no Uruguai; o perigo e a ameaça de contágio para o Rio Grande conlindante, tão cheio ainda de germes revolucionários; as incessantes incursões uruguaias, a prearem gados e rebanhos e tropilhas, exercendo sua ação devastadora por centenas de léguas quadradas, e roubando centenas de mil cabeças, 800 000 ao que se computava na época, aos estancieiros dos municípios da fronteira. Nenhuma facilidade para atravessar rios ou lagos se poderia conceder, pensavam os criadores rio‑grandenses.

De tais sentimentos e noções em conflito, nasciam má vontade, hostilidades recíprocas, e de dia para dia se agravaram.

146. Neutralidade real do Brasil. — Não possuía o gabinete do Rio preferência por tal ou qual partido nas lutas internes do Uruguai. Mantinha‑se estritamente neutro, e, oficialmente, entendia‑se com as autoridades de Montevidéu, fôssem estas quais fôssem. Sucessivamente, havia tratado como Oribe, e com Rivera, e com o govêrno da defesa de Montevidéu, enquanto cada um dêles fôra detentor legal do poder. É absurdo falar de tal ou qual partido como sendo de amigos ou de protegidos pelo Império. Mas na pequena República conflagrada, as falas eram outras: cada grupo no poder invocava o auxílio do Brasil, e seus p230sentimentos para com êste variavam conforme haviam recebido, ou não, o suspirado favor.

Apesar da falta de senso de tal modo psicológico de julgar os casos, inda assim existia e predominava; constituía a fôrça orientadora, profundamente perturbadora, das relações internacionais entre os dois países. Como sempre, nesses momentos de guerra civil, os interêsses partidários levavam a melhor e sufocavam o senso exato de apreciação dos deveres entre nações.

Hoje em dia, as opiniões mudaram: a quase unanimidade dos historiadores reconhece a natureza real dos alvos brasileiros, liberais e altruístas; mesmo aquêles que tinham criticado e censurado a política imperial no Rio da Prata, cantaram nobremente a palinódia e confessaram seu equívoco. Abriram‑se os arquivos do Brasil, mesmo os mais confidenciais, e seu conteúdo tem sido publicado. Não é mais possível pôr em dúvida a sinceridade da diplomacia imperial, nem a de suas intenções proclamadas ou de seus atos realizados. De modo excepcional, ainda se pode ouvir uma que outra voz dissomante, sem eco, entretanto. Mas outra era a feição pela era dos sessenta e dos setenta.

147. O dissídio argentino-uruguaio. — Ainda mais sérios eram os dissentimentos entre Uruguai e Argentina.

Depois de Monte Caseros, Urquiza havia ocupado Buenos Aires, e os pelotões de execução começaram a fuzilar prisioneiros e adversários. Amontoavam‑se em Montevidéu os refugiados políticos, e em 1856 um bando dêles atravessou o rio de nôvo, para tentar depor as autoridades instaladas em conseqüência da vitória de Caseros. Derrotados e condenados, cêrca de cento e quarenta foram passados pelas armas. Oribe foi suspeitado de ter desempenhado certo papel no trama dessa invasão.

Por outro lado, a idéia de reconstituir o antigo vice‑reino de Buenos Aires nunca desaparecera da mentalidade argentina e de seus chefes. Rosas nunca reconheceu a independência do Paraguai, e, à raiz da intervenção de Oribe nas agitações uruguaias, se achava a intenção de reincorporar Montevidéu à Confederação. Alguns pensadores e chefes partidários uruguaios nutriam o mesmo modo de enxergar opprobrium político do Prata: entre êles, D. Juán Carlos Gómez, político de primeira plana e p231de altíssimo valor, espírito verdadeiramente superior. Apresentou‑se no pleito eleitoral uruguaio de 1857 como conservador, pois um programa de reconstituição do vice‑reino iria ferir o sentimento público de todo o país.

Era seu intuito apear da presidência o presidente D. Gabriel Antônio Pereira. Um grupo de colorados sustentava a Pereira; outro, do mesmo partido, opunha‑se a seu govêrno; parte dos blancos era‑lhe simpática.

Tal pressão exerceu Gómez sôbre Pereira, que êste se viu constrangido a o exilar para Buenos Aires, com alguns poucos partidários seus. Imediatamente, os conservadores responderam a essa apelidada provocação, preparando a revolução, com o apoio e simpatia de Buenos Aires. Iniciou‑se em dezembro de 1857, e tomou algum incremento em janeiro de 1858; mas, a 28 dêsse mês, a coluna revolucionária foi destroçada e capitulou em Quinteros. Apesar de se haver rendido, o govêrno de Pereira ordenou o fuzilamento dos chefes, o que sucedeu a 1o de fevereiro. Tal massacre, repulsivo e vergonhoso, não fôra decidido por ódio partidário, pois, no gabinete, tanto blancos como colorados haviam cooperado para aconselharem ao presidente Pereira agir com desapiedada energia. Para tais conselheiros da maneira forte, essa norma parecia indispensável para encerrar a era das revoluções e as tendências insurrecionais.

Tão evidente fôra a participação de Buenos Aires na conspiração, que, desde o primeiro momento, Pereira suspendeu as relações diplomáticas com aquela cidade, e pediu a intervenção do Brasil e da Confederação Argentina, da qual a capital porteña se achava separada desde setembro de 1852. As fôrças unitárias dessa província haviam sido levadas ao desespêro pelos excessos do governador de Entre Rios, e o tinham forçado a voltar para sua província. A tragédia de Quinteros deixara provado que Montevidéu nada tinha a recear, e tornara inútil qualquer intervenção de Urquiza. O Brasil, sim, teve de agir, um pouco mais tarde, para evitar que de Buenos Aires viesse qualquer auxílio eficaz.

Pereira, contudo, demitiu ao geral D. Venâncio Flôres de seu pôsto oficial, sob o pretexto de ter, sem a devida licença, deixado Entre Rios por Buenos Aires, ponto do qual tencionava p232promover desordens do Uruguai, de acôrdo com D. Juán Carlos e outros oposicionistas ao Govêrno Oriental.

Urquiza, ansioso por ver desaparecer a dissidência entre Buenos Aires e a Confederação, mais uma vez invadiu a província isolada, com o único resultado de se ver estrondosamente derrotado em Cepeda, a 23 de outubro de 1859, desbaratado de tal ordem que o obrigou a se retirar. Tal acontecimento, fortalecendo Buenos Aires, não melhorava a posição do Uruguai, e esta República temia ser o alvo das conquistas de seus vizinhos. Por isso, e após discussões prolongadas, foi assinado em 1859 um tratado de neutralidade entre a Argentina, o Brasil e o Uruguai: o Parlamento dêste último país o rejeitou.

Finalmente, em março de 1860, finalizaram os podêres de Pereira, e um nôvo presidente foi escolhido, D. Bernardo Berro, um blanco, merecedor dos maiores louvores, e cuja administração iria ser o primeiro govêrno real do Uruguai, desde sua independência.

Embora tivesse sido ministro de Pereira, agiu do modo mais avisado para acalmar as paixões irritadas dos partidos, especialmente quanto a Quinteros, cuja sombra trágica pesava no ambiente nacional. Seu alvo era extinguir as antigas denominações de blancoscolorados, quase destituídas de sentido em um meio que vira formarem‑se novos grupos com membros de ambas as velhas organizações políticas.

Poderia sua administração ter sido caracterizada por uma pacificação geral, pois tal era o pensamento do presidente, e tal seu modo de agir. Mesmo impedido, como se achava, logrou melhorar as condições do Uruguai: restaurou‑se o sossêgo do país: desenvolveram‑se os fatôres econômicos; por todos os recantos, ouviam‑se elogios aos efeitos de sua política de conciliação e de saneamento; seus resultados eram apontados geralmente.

148. Revolução de D. Venâncio Flôres. — Não paralisava, entretanto, o ódio partidário. Os exilados uruguaios, à margem oposta do caudal, desempenhavam papel preeminente nas lutas entre Buenos Aires e a Confederação, esta sob o domínio de Urquiza. Quando as hostilidades chegarem a seu auge, e Urquiza, a 17 de setembro de 1861, sofreu o revés decisivo de Pavón, e assim foi atingida a fase final de organização da República p233Argentina, haviam generais e oficiais uruguaios brilhado no campo de batalha. Por tais motivos, mais íntimos eram os laços de mútua estima e de amparo recíproco entre os pelejadores de ambas as margens do Rio da Prata.

D. Venâncio Flôres, portanto, ao invadir o Uruguai, em abril de 1863, e em suas operações guerreiras do ano seguinte, encontrou pleno apoio por parte de Mitre, já eleito presidente da Confederação, desde 1862.

Tal estado de coisas agravou‑se pela intensificação dos sentimentos de inimizade entre os dois governos, até que se rompessem as relações diplomáticas entre êles, nos primeiros dias de 1864, e que se chegasse a pique de conflitos armados. Urquiza, o adversário derrotado de Mitre, pendia por Montevidéu, mas seu valor era nulo após a derrota de Pavón.

Do Norte, entretanto, apropinquavam‑se nuvens temerosas, que se adensavam sôbre o Uruguai.

149. O desespêro da fronteira uruguaio-brasileira. — A vida da fronteira do Rio Grande estava em completa desordem. No período anterior a Caseros, havia surgido uma trégua; pois, entre Montevidéu e o Brasil, havia comunhão de interêsses contra Rosas, o inimigo comum. Mas, na fase seguinte, fôra de agitações e distúrbios, como vimos, e dominava desconfiança geral contra o Império, a gerar má vontade mútua entre os dois lados da linha limítrofe.

Numerosos brasileiros eram possuidores de terras no Uruguai, em continuidade com as estâncias que tinham no Rio Grande. O sentimento hostil, não público, a princípio, manifestava‑se em pirraças e pequenos vexames; mais tarde, foram ataques mais graves, assassínios, roubos de gado, ao longo todo da fronteira. Passara mais tempo, fizeram‑se incursões dentro na província, cada vez mais audaciosas e prejudiciais, à medida que o ódio crescia contra o Brasil no país lindeiro.

Sempre foram conhecidos os rio‑grandenses como belicosos, suscetíveis em matéria de pundonor. Tais processos de vexatória hostilidade puseram a província tôda em pé de guerra: sua única propriedade, o gado, estava ameaçada; suas vidas, postas em perigo; suas fazendas, invadidas e destroçadas. Não se tratava de p234prejuízos sem importância: mais de 800 000 cabeças assim haviam desaparecido, e os atos de banditismo se exerciam por mais de seiscentas léguas quadradas de pastagens ricas em campos finos.

Queixas afluíam no Rio, e o gabinete reclamava diplomàticamente em Montevidéu perante suas autoridades. Tal era a situação perturbada da República, desde 1852 até a presidência de Berro, que faltavam ao govêrno local os meios materiais de fazer justiça, ou mesmo de ouvir imparcialmente os queixosos, em um país dilacerado pela guerra civil. Cônscio disto, o Brasil não podia e não queria insistir demasiado em seus esforços de exigir reparações pelos males e prejuízos sofridos por seus nacionais, e adiava tal prestação de contas para dias mais calmos.

Assim se foi protelando, até a subida de Berro à presidência. Mas eram assim doze anos de abandono e de paralisação na defesa dos interêsses rio‑grandenses, e êstes sofriam e gritavam, até que, cansados de se verem a sós, começaram a procurar justiça por suas próprias mãos.

Pequenos bandos começaram a cruzar a fronteira, e iam ao Uruguai recapturar seus rebanhos roubados, e tornar efetivos seus direitos, à fôrça de armas. A essa natural reação dos interêsses lesados e conspurcados, Montevidéu chamava de intervenção brasileira na vida interna da República. Mais ainda, quando, desesperados os brasileiros com os desmandos das autoridades da campanha uruguaia, e ciosos por defenderem seus legítimos direitos violados, fizeram causa comum com os adversários de seus perseguidores impenitentes, causa real de tais conflitos.

Tornaram‑se cada vez mais numerosos e graves tais recontros, e atingiram seu auge durante o levante de D. Venâncio Flôres, em 1863. Os rio‑grandenses haviam organizado verdadeiros bandos militares, tropas irregulares, sob o comando do Barão de Jacuí, um dos melhores auxiliares de Caxias durante a Guerra dos Farrapos, estancieiro êle próprio, e lesado pelas desordens da fronteira.

Como era natural, Montevidéu queixava‑se. Do Rio partiam ordens às autoridades provinciais, mas tais instruções só parcialmente, e isto mesmo mal, eram atendidas ao longo da linha divisória, pois os habitantes dessa região sabiam e sentiam p235a justiça de suas reivindicações, e sabiam ainda que sòmente se batiam para que suas vidas e suas propriedades fôssem respeitadas.

Os Anais do Parlamento, no Rio, bem como os da Assembléia do Rio Grande do Sul, estavam cheios de tais discussões e queixas fundadas. Mais ainda: o general Neto, representando os estancieiros de sua terra, foi ao Rio com a incumbência especial de abrir os olhos do govêrno sôbre os perigos da situação, e dizer que, se os interêsses rio‑grandenses não encontrassem apoio por parte do Govêrno Geral, a província faria sua própria defesa por seus próprios elementos, e combateria o Uruguai, apesar dos pesares, mesmo correndo o risco de uma nova secessão. Neto havia sido um dos mais valentes e bem sucedidos chefes da revolução de 1835‑45.

150. Missão Saraiva. O ultimatum. — Assim premido pelos fatos, não podia o govêrno imperial deixar de agir com energia acrescida. Tal foi a origem da missão dada ao deputado José Antônio Saraiva, em abril de 1864.

Desta sorte, nos dias últimos do govêrno de Berro, quase simultâneamente vinham graves perigos ameaçar o Uruguai: a Argentina, com hostilidades pendentes contra a administração blanca, e favorecendo de modo evidente aos partidários de D. Venâncio Flôres; o Brasil, neutro entre os partidos locais, a exigir, porém, justiça em favor de seus nacionais, prejudicados em seus interêsses pelos fatôres de desordens e de danos, e ameaçando levar sua intervenção até os últimos limites para que justiça se fizesse e fôssem satisfeitas suas reclamações.

Uma coincidência feliz, entretanto, permitia esperar que um entendimento se pudesse conseguir. Saraiva era a personificação da honra, da moderação, do espírito de justiça e do amor aos meios suasórios. Tão alto iam êsses predicados, que, com o correr do tempo, nos últimos dez ou quinze anos do Império, êle dominava os partidos e era considerado e respeitado como vice-imperador, apelido que lhe deram.

O presidente Mitre representava a chegada ao poder de uma corrente nova na política argentina. Unitário, exilado no Chile em companhia de seu nobre amigo Sarmiento,a ambos já haviam p236compreendido que era outra, que não a primitiva, a feição dos problemas platinos.

A princípio, por 1810, o ideal de independência e de unidade do antigo vice‑reino de Buenos Aires havia inspirado todos os grandes chefes do país, Paraguai excetuado, pelo isolamento impôsto em tôdas as coisas pelo Dr. Francia. Todos êles, por meios diferentes e por métodos variáveis, haviam procurado servir ao mesmo alvo. Por êle, Artigas havia combatido por parte do Uruguai, sob a forma de uma federação. Os diretores das Províncias Unidas buscavam uma solução na receita monárquica. Os unitários queriam grupar tôdas as frações territoriais, sob o predomínio de Buenos Aires. Os federais, adotando essa forma de organização governamental, afirmavam, com o severo predomínio de Rosas, a supremacia de Buenos Aires, a esmagarem tôda tendência de secessão, negarem o reconhecimento da autonomia paraguaia, e se esforçaram, através de Oribe, a constranger ao Uruguai a se reincorporar na Confederação. Dêsse ponto de vista, o tratado de 1828 valia por um triunfo do ideal independentista, pelo forçado recuo do imperialismo brasileiro de D. João VI e de D. Pedro I, tanto quanto da política reconquistadora da Argentina.

Mas, chegados aí, grande divergência de rumos se tornava evidente, embora o Uruguai nela não quisesse acreditar por largos anos: o Brasil havia sinceramente renunciado a todos os seus pruridos conquistadores de tempos idos, enquanto Rosas e seus federados não tinham cedido de seus antigos ideais, e ainda se inspiravam na sombra prestigiosa do vice‑reino.

Até Caseros, e êste é um dos motivos para ser considerada essa data como uma das capitais, um dos fatos dominantes e decisivos da história do Rio da Prata, tal miragem havia sido o elemento perturbador dos acontecimentos políticos dessa região. A partir de Caseros cessou: o Uruguai foi considerado como verdadeiramente independente na mentalidade argentina. A intervenção de Buenos Aires na margem oriental do grande rio passou a ter outro fundamento: Urquiza havia‑se tornado inimigo de Buenos Aires, já agora isolada pelas violências do governador de Entre Rios; os chefes colorados do Uruguai, vencidos pelo govêrno blanco de Montevidéu, tomaram lugar ao lado p237de Buenos Aires, para onde tinham fugido, enquanto Urquiza e a Confederação eram aliados dos blancos uruguaios. Assim, dois grupos surgiram lògicamente. Venâncio Flôres e seus colorados, com Buenos Aires; contra os blancos da antiga Cisplatina e Urquiza. E, como esta última agregação era uma ameaça à primeira, procuravam os porteños enfraquecer a seus adversários, unindo‑se ao grupo colorado.

Desde 1853, o Congresso do Paraná havia aderido a Urquiza; tinha celebrado sua reunião em Santa Fé, mas adiara suas sessões em 1860. Depois de Pavón, as Legislaturas provinciais declararam vacante o Poder Executivo e o entregaram a D. Bartolomeu Mitre, com o encargo de convocar nôvo Congresso, em Buenos Aires. A 25 de maio de 1862, iniciaram‑se as suas sessões, e Mitre foi eleito para a presidência, no mesmo ano.

Já agora, os novos chefes queriam tornar solução jurídica e constitucional o que fôra mero produto de uma situação de fôrça e de luta partidária. O ascendente de Buenos Aires devia ser reconhecido e aceito, como poder normalmente regedor das províncias; os fatos consumados deviam ser confessados, tanto no Uruguai, como no Paraguai; a pacificação geral das Repúblicas do Prata devia constituir um alvo geral e comum. Dêsse conjunto de metas altas e nobres, Mitre fêz seu programa, logo que a derrota de Urquiza o permitiu. Da primeira oportunidade que achou, êle se valou para iniciar com êsse rumo sua política internacional, e a oportunidade se apresentou com a missão de Saraiva a Montevidéu.

Foi para o Prata verdadeira infelicidade que a sucessão de Berro recaísse no presidente do Senado, D. Atanásio Aguirre. Nada mais era êle do que um partidário, a se mover aos impulsos exclusivos dos alvos de partido, e incapaz de admitir idéias gerais acima do horizonte dos grupos políticos. Para êle governar significava apenas conservar seus amigos no poder, acontesse o que acontesse.

As ordens do Gabinete Imperial visavam o envio a Aguirre de um ultimatum, exigindo compensação dos prejuízos causados a brasileiros, punição dos responsáveis e a instauração de uma era de justiça; se fôsse recusado o pedido, tropas brasileiras de terra e mar efetuariam represálias. Saraiva, entretanto, preferiu p238silenciar sôbre tais exigências, a fim de ver se conseguia persuadir e pacificar os contendores, em vez de ameaçar.

A 12 de maio de 1864, apresentou suas credenciais, e a 18 remetou uma nota, perfeitamente cortês, expondo os fins de sua missão. Em resposta, recebeu uma comunicação furiosa e rude, impregnada de odio partidário em todos os seus têrmos. O enviado brasileiro recusou discutir nesse tom, e, em nota de 4 de junho, polidamente expôs quanto eram insignificantes os argumentos usados contra a explicação imperial dos negócios e das queixas. Ainda então, não apresentou o ultimatum.

Estava esperando uma contestação, quando, a 6 de junho, o ministro argentino dos Negócios Estrangeiros, D. Rufino de Elizalde, e o ministro britânico Edward Thornton chegaram a Montevidéu, com o intuito confessado de oferecerem seus bons ofícios a Aguirre, pois assim desejava vivamente todo o corpo diplomático residente em Buenos Aires. Sentiu‑se Saraiva esperançado com tal iniciativa, e pensou que o Uruguai chegaria a entendimento. Junto com os mediadores espontâneos, foi ao presidente, e, depois de protraída discussão, todos chegaram a um acôrdo, fórmula conciliadora que talvez pudesse pôr têrmo à luta cruenta e restaurar a paz ao país, alvo precípuo dos esforços combinados de todos êles, preliminar necessária para se solverem as dificuldades com o Brasil. Tudo veio a público em 10 de junho.

Foi então consultado o general Flôres, que concordou com as medidas, contanto que Aguirre chamasse para seu gabinete ministros novos que pudessem inspirar confiança aos colorados, mas fazendo dessa condição nova uma preliminar essencial para seu próprio assentimento.

Os protocolos dessas negociações foram redigidos e submetidos ao Govêrno Oriental, finalmente aceitos por êste, embora algumas objeções, poucas, fôssem feitas e resolvidas. À última hora, quando se tratou de entregar os documentos a Flôres, verificaram os mediadores, com indignação extrema, que Aguirre havia publicado condições divergentes das que tinham sido acordadas no pactos discutido e aceito! . . .

Do debate descosido e sem nexo que então se travou, resultou apenas a comunicação de 3 de julho feita a Flôres, de p239que o presidente havia mudado de parecer, e recusara. A luta civil, suspensa desde o início das tentativas pacificadoras, começou de nôvo, e, agora, com redobrada fúria, pela indignação resultante da falta de fé do govêrno.

Mais uma vez, Saraiva delongou o cumprimento de sua incumbência. Passou‑se para Buenos Aires, a fim de enviar seu relatório das ocorrências ao Rio, com os devidos detalhes, expor a nova situação e pedir instruções definitivas. Mesmo então, não fechou a porta às trocas de vistas e à possibilidade de acôrdos de última hora. Tal era sua ansiosa sofreguidão em evitar violências. Nada mais restava, respondeu‑lhe o gabinete, do que conceder a Aguirre prazo curto para satisfazer às exigências brasileiras, e, caso denegada a justiça, obtê‑la por meio de represálias.

A 4 de agôsto de 1864, o ultimatum foi apresentado. A 9, o ministro uruguaio das relações Exteriores o devolveu como inaceitável, e propôs o arbitramento. Já agora, tal proposta não podia ser aceita nem tomada em consideração, pois significava apenas protrair um debate já velho de muitos anos, e no qual a boa fé do Brasil servira de joguête. A 30 de agôsto, o Uruguai rompeu relações diplomáticas com o Império.

Inda assim, não havia começado a guerra. Para tranqüilizar os espíritos sôbre os intuitos pacíficos e modestos do Brasil e da Argentina, antes da partida de Saraiva de Buenos Aires foi assinada por êle e por Elizalde uma declaração de que, em qualquer caso, a Independência do Uruguai seria respeitada.


[image ALT: Um mapa schemático das Guerras do Uruguai e do Paraguai no século XIX.]

Schema das Guerras do Uruguay e do Paraguay

[Uma versão maior totalmente legível abre aqui (4.2 MB).]

151. A Guerra do Uruguai. — Não entraram fôrças brasileiras na República antes de dezembro, e a esquadra de bloqueio do Rio da Prata revelou atividade escassa até outubro. Durante êsse período, novos esforços foram tentados por Mitre, pelo ministro italiano em Montevidéu, Barbolini, todos norteados pelo empenho de se chegar a uma solução pacífica. Nulo o resultado. Aguirre recusou tôdas as propostas. Não era suficiente o ódio partidário para explicar tal emperramento. Pode admitir‑se à versão de que, sendo Mitre amigo de D. Venâncio Flôres, sua intervenção pudesse parecer suspeita aos blancos, bem como tôda tentativa de Buenos Aires. Mas é preciso ponderar que, em nenhuma das sugestões, era desafiado ou diminuído o prestígio de Aguirre ou do govêrno blanco: a exigência única era a pacificação p240geral, para que todos os uruguaios pudessem gozar de seus direitos naturais.

Outra causa existia, que movia presidente e ministros a rejeitar qualquer solução de paz: desconfiança profundamente radicada contra o Império e a Confederação, o primeiro suspeitado de alvos expansionistas, o segundo apontado como querendo mudar a situação respectiva dos partidos locais na República.

Hoje em dia, foi lançada plena luz sôbre os fatos daquela época, e divulgadas as negociações. Podemos, portanto, falar serenamente sôbre êles, e tanto mais, quanto os próprios historiadores uruguaios, que criticavam a atitude da Argentina e do Brasil e acusavam amargamente êsses países, reconheceram nobremente seu equívoco, confessando honestamente e com ânimo elevado o êrro em que laboravam, o que dá lugar a que pareça existir concordância de pareceres, bastante generalizada, sôbre o que então se passou.

Não há receios de ofender ou menosprezar sentimentos patrióticos respeitáveis, sinceros, embora mal avisados e mal aconselhados.

Que Montevidéu desconfiava de Buenos Aires, está abundantemente provado: uma das bases alegadas eram as relações amistosas entre a Argentina e o Brasil, o que levava as missões brasileiras a conferenciarem ìntimamente com Mitre, a pedido do próprio Uruguai, a fim de obterem dêsse eminente estadista seguranças de boa vontade e de respeito pela Independência da República vizinha.

Quanto ao Império, a abundância de panfletos hostis, os relatórios publicados de diplomatas ou suas instruções, provam, além de tôda possibilidade de negação, que, enquanto os bons ofícios do Rio eram pedidos e, satisfeitos, eram agradecidos no seu empenho de neutralidade e de paz, os blancos do Uruguai intrigavam em Entre Rios, Corrientes e Paraguai, visando formar uma aliança contra as duas nações confrontantes.

Nada podia ser mais comprobatório dessa política de desconfiança do que tal esfôrço, praticado sob aparência de boa fé, para planejar e realizar um plano mortal de ataque àqueles mesmos cujo auxílio era empenhadamente solicitado.

p241 Cumpre, entretanto, considerar tais fatos com severidade menor do que em ocasiões normais: o Uruguai, sob o influxo de uma hereditariedade de lutas e de guerras, fraco, ignorando os fundamentos reais da política imperial, receava ser conquistado, e agia como agem os tímidos e fracos às ocultas e fugindo à luz meridiana.

Por êsse mesmo motivo, no Brasil, devemos o mais alto respeito, a gratidão máxima e o reconhecimento sincero de superioridade moral e política, a alguns dos chefes do Rio da Prata, que fizeram jus a tais sentimentos de nossa parte, pela confiança que em nós depositaram, em nossas intenções e em nossa ação: D. Manuel José Garcia, até certo ponto, nos dias de D. João VI e do primeiro Imperador, D. Pedro I; D. Andrés Lamas, o nobre uruguaio que, em sua longa carreira, sempre agiu confiante em nossa sinceridade, e trabalhou pela paz e pela fraternidade dos dois povos; D. Bartolomeu Mitre, cuja autoridade e ascendência moral sempre se exerceram no rumo do mesmo ideal político.

A êsses homens de Estado, o Brasil sempre tributou sua mais funda reverência e imorredoura gratidão. Deu‑lhes lugar distinto e proeminente entre os filhos da própria Pátria, entre os queridos e admirados. Foram videntes inspirados, trabalhadores indefessos pelo porvir da paz fraterna sul‑americana e por sua grandeza.

O melhoramento manifesto das relações continentais é devido ao Evangelho que pregaram, de confiança recíproca e de colaboração; a semente que lançaram ao solo, nos tumultos e dificuldades, está hoje crescendo e florescendo em searas abençoadas, e nós, seus descendentes e continuadores, colhemos no sossêgo e na alegria as messes que êles prepararam em dias de labor e de sofrimento.

Infelizmente, êsses Precursores constituíam uma exceção. A opinião geral era a suspeita, ou claramente expressa, ou mantida em silêncio sempre vigilante e às ocultas.

152. A intervenção paraguaia. — Que significa, e qual era a valia real e qual o alcance da aliança paraguaia para os interêsses uruguaios?

A República central era absolutamente desconhecida, tanto que, em 1862, sendo presidente do Uruguai D. Bernardo Berro, p242quando se adotou a nova linha diretora da política externa dêste país, as primeiras instruções dadas ao emissário enviado a Assunção para a realizar, D. J. J. Herrera, consistiam precisamente em inquirir quais os alvos, os interêsses e as divergências de vistas reinantes no Paraguai, no teatro internacional. O modo pelo qual a missão foi cumprida, não foi o de soberanias equivalentes, a se encontrarem e tratarem em pé de igualdade. Antes parecia a solicitação de um subordinado implorando a boa vontade e a proteção de um superior. E, entretanto, o Uruguai bem sabia quanto era superior a seu interlocutor, de todos os pontos de vista! . . .

A tais extremos chegaram as coisas, que a ilha de Martim Garcia, chave naqueles dias da navegação dos rios da região, foi oferecida ao Paraguai; acrescente‑se, é certo, que a ilha deveria ser prèviamente arrancada da posse da Argentina que a ocupava.

Embora D. Francisco Solano Lopes disfarçasse, e fingisse não lhe interessarem tais ofertas, de fato constituiriam elas um elemento de primeira ordem para os desígnios ocultos. Nunca consentiu em assinar um tratado com o Uruguai ou Entre Rios, dizendo que auxiliaria ao govêrno de Montevidéu por atos, como realmente fêz, embora de modo desastrado. Sua idéia real não deveria ser entravada por liames de qualquer natureza, com povos que êle intentava conquistar.

Há uma sorte de insanidade, sempre vencida em tôdas as ocorrências históricas, que se apodera dos espíritos dos condutores de homens, dos mais populares entre êles. Na América do Sul, sonhou Bolivar o sonho imperialístico, e falhou. D. João VI e D. Pedro I acalentaram a mesma tendência expansionista, e, no decorrer dos fatos, ela provou um desastre. Rivera alimentou a mesma ilusão conquistadora, ao querer formar um Uruguai-Maior, e foi varrido pela derrota, morrendo ao voltar para a Pátria, do exílio impôsto por esta no Brasil, em Jaguarão. Rosas havia encontrado a mesma sorte.

Chegava, agora, a vez do Paraguai. Tudo quanto se sabe, aponta para Lopes como nutrindo o plano de criar um Paraguai-Maior, absorvendo, fôssem quais fôssem os meios, Corrientes, Entre Rios e Uruguai, tornando‑se assim uma potência atlântica, p243em vez da República Central que era, sendo Montevidéu erigido capital do nôvo Império, então constituído.

Programa e plano eram audaciosos, e provaram visão política e habilidade organizadora. Para os realizar, contudo, faltava o Homem, capaz de plasmar e consolidar tão vasta conquista, que importava em esmagar a Argentina e o Uruguai, e fundamente ferir os interêsses brasileiros. Lopes não tinha personalidade nem porte para empreendimento tão gigantesco. E o grande êrro dos blancos foi não terem compreendido sua inferioridade, a desproporção entre o drama e o ator principal. Fôsse êle triunfante, teria o ditador do Paraguai dado o golpe de morte na Independência do Uruguai.

Pela era dos sessenta, era o Brasil o único poder sul‑americano normalmente em contato com Assunção.

Em 1811, esta província do vice‑reino de Buenos Aires feito secessão e, após curto espaço de tempo, caíra sob a ditadura de D. José Gaspar de Francia. Durou tal período até 1841.

Embora Carlyle cite Francia em seu ensaio sôbre os Heróis, de nenhum modo pode êle ser considerado como tal. Despótico, friamente cruel, usava assistir às numerosas execuções, por êle ordenadas; vingativo, nunca poupava adversários, e condenava à morte pelo mais leve gesto ou pela mais inocente palavra, que lhe desagradassem. Entre as famílias, reinava a delação, como sistema de govêrno. Em grau subido, êsse método fêz dos paraguaios, acostumados à obediência e à disciplina passiva pelo domínio dos jesuítas sôbre os índios com os quais haviam intensamente cruzado, um povo sombrio, silencioso e dominado por completo pelas ordens vindas da autoridade superior. Uma humanidade patriótica, fanática e admiràvelmente plástica, ansiosa por obedecer e sacrificar‑se em favor de entidades superiores, representantes da autoridade, das menos graduadas até El Supremo, o presidente da República, enviado de Deus na terra. Tal a doutrina severamente e cruentamente imposta por Francia.

Agindo por esta forma, entretanto, Francia prestava imenso serviço a seu país, nas relações internacionais. Sabia que o Paraguai era fraco por demais para poder resistir a seus vizinhos, caso se desse um choque com êstes; por isso, envidava todos os esforços para se manter fora de todo conflito, e seu ideal era ver p244sua terra esquecida, até que, por seu crescimento, pudesse ela desempenhar‑se de sua missão no mundo. Isolou a vida local, fechou os rios pelos quais comunicava com o resto do orbe, construiu uma sorte de muralha chinesa em tôrno dela. Ninguém entrava; ninguém saía. E, pelos países vizinhos, espalhou um tecido de intrigas e de emboscadas políticas, que lhe permitissem viver e governar inobservado e fora de aventuras e de embaraços, enquanto nelas tumultuavam as duras experiências do Rio Grande e do Uruguai, Buenos Aires e Entre Rios, Corrientes e Santa Fé.

Nos anos perturbados e agitados de 1824‑1826, o Brasil temia complicações sérias por parte da Bolívia, da Argentina e da Cisplatina: não lograria fazer face a tantas frentes de combate. Por necessidade, e não por virtude, o Império sentiu o auxílio valioso que o Paraguai poderia representar como amortecedor de choques, e procurou utilizá‑lo para seus fins. Orientação idêntica foi seguida mais tarde, no Uruguai, após o tratado de 1828.

Assim, em 1824 e em 1826, o Brasil enviou diplomatas a Francia, com a incumbência única de o convencer de que deveria se manter neutro, missão esta realmente fácil, pois coincidia com o sentimento íntimo e essencial do ditador. Era o reconhecimento da Independência do Paraguai, embora a comunicação oficial dêsse ato só se fizesse em 1842, não mais a Francia, mas a D. Carlos Antônio Lopes, seu sucessor, e sempre com o mesmo intuito de não chamar a atenção sôbre o país.

Quando, em 1841, se avizinhava a morte de Francia, mais uma vez diplomatas brasileiros foram nomeados para Assunção, e representaram quase contìnuamente o Império nessa capital até a guerra de 1864‑1870. Pimenta Bueno, o futuro Marquês de São Vicente, auxiliou poderosamente a Lopes I, em manter sua posição, pois a Argentina havia solenemente protestado em 1845 contra a formação pública feita pelo Brasil de que reconhecia o Paraguai como nação independente, declaração esta que fôra enunciada em 1844, depois de o ter sido de modo prático pelas missões de Correia da Câmara em 1824 e 1826. Outros não eram os fins dos tratados de 1844, 1845, 1850, 1856 e 1858, embora o primeiro não houvesse logrado ratificação. Dúvidas haviam p245surgido entre os dois governos acêrca da navegação dos rios; D. Carlos Lopes mandara passaportes ao encarregado de negócios brasileiros Leal, em 1853; até 1855, o Brasil não fôra representado em Assunção, mas, daí por diante, tinham sido regulares e constantes as relações. Os receios dominantes no Paraguai tinham por alvo as intenções da Argentina.

Rosas tinha tornado pública sua animadversão; para se precaver contra tais sentimentos hostis, Lopes I havia solicitado do Império a remessa de profissionais capazes de planejar e edificar as defesas militares precisas para tornarem intransponíveis as passagens estreitadas dos rios Paraguai e Paraná, bem como para instruir e organizar seu exército. Não podia ser mais cordial e íntima a colaboração entre os dois países.

Tem‑se criticado ao Brasil pela miopia de sua visão diplomática, ignorando a ameaça e o perigo que se delineavam no Paraguai. Falta base a tal acusação: tal previsão não seria possível, pois inexistiam causas de hostilidade ou sentimentos inamistosos. Quando D. Francisco Solano Lopes, Lopes II, ascendeu ao poder e começou a armar seu govêrno, não era o Brasil o alvo que visava; seu intento consistia apenas em criar o instrumento militar com o qual pretendia impor sua política internacional, o Paraguai-Maior. Como sempre, os acontecimentos se revelaram mais poderosos do que os desígnios humanos, e, afinal, o choque se deu com o Império.

D. Carlos Antônio Lopes era um déspota grosseiro e rude; não tinha crueldade, entretanto. Embora insistisse nas mesmas normas estritas e severas de obediência e de veneração por parte de seus súditos, que já seus antecessores haviam exigido, êle lhes dava uma existência tolerável. Foi o primeiro a entrar em contato, distante embora, com seus vizinhos, especialmente com o Brasil. Sabia não possuía meios de educar seus filhos no próprio país, e fê‑los viajar para êsse fim; Benigno, para o Rio de Janeiro; Francisco Solano, para a Europa.

Apesar de serem irmãos, entre ambos existiam diferenças essenciais. Benigno tinha herdado algumas das qualidades mais louváveis do pai. Em Francisco Solano, nenhuma se poderia encontrar. Ministro da Guerra e comandante-chefe do Exército, aos dezoito anos de idade, impunha‑se a seu pai, fazia‑se ouvido p246e tinha nas mãos tôdas as fôrças do Paraguai. Possuía dotes de administrador, e o modo pelo qual, em dois anos, da morte de Lopes I até 1864, conseguiu pôr em linha de 80 000 a 100 000 homens (segundo afirma Gould), providos de fuzis e artilharia, o prova de forma convincente, pois antes de sua presidência contava a tropa apenas uns poucos milhares de soldados.

153. D. Francisco Solano Lopes. — Apesar de sua viagem ao estrangeiro, a educação de Solano Lopes se fizera como a de Francia e de Lopes I: um autocrata absoluto. Vidas, fortunas, honra das famílias, fazenda de seus súditos, de tudo dispunha a seu talento e tudo considerava como lhe pertencendo. Seu próprio arbítrio era sua única lei, sem que fôsse possível discutir suas determinações: a menor revolta, por mais insignificante, contra essa obediência servil, era passível de pena de morte.

Pode‑se distinguir duas fases em sua carreira: enquanto seu pai foi vivo, e, mesmo nos primeiros tempos de seu próprio govêrno, até os primeiros reveses da fortuna na guerra de 1864, levara vida de dissolução e de excessos; da Europa, voltou refinado em sua luxúria e mais fundamente imerso em seus vergonhosos abusos; com êle viera sua célebre amante, Elisa Alice Lynch, a mulher separada do cirurgião do exército francês, homônimo do grande Quatrefages, a qual se perdera no demi-monde parisiense.

Ela o dominava, ou então o inspirava em tudo, ou ainda adivinhava seus pensamentos mais íntimos; de fato, era materialmente impossível distinguir‑se qualquer ato ou decisão emanava dêle ou da Lynch. Duas ambições furiosas a dominavam; casar como Solano, e vê‑lo desempenhar um papel saliente e extraordinário na política internacional sul‑americana. Era incrível sua ganância por dinheiro e riquezas, e a conduziu a verdadeiros crimes. Sua insensibilidade e dureza de coração roçavam pela sêde de sangue; muitos dos crimes de Lopes tiveram por origem sugestões dessa estranha mulher.

Após seus desastres militares, êsse lado de sua psicologia se carregou de tintas sombras. Começou a se embriagar, a ponto de fixar intoxicado. Nêle surgiu uma tendência cruel de tortura e de vingança contra inimigos inventados, ou conspiradores de p247conjuras inexistentes. Não há palavras que descrevam os tormentos novos e as invenções achadas para aumentar os sofrimentos e as agonias de suas vítimas. Revelou‑se um gênio chinês de carrasco, para fazer expirar seus adversários, reais ou presumidos, por processos de morte lenta. Refinou torturas e angústias mortais e horrores, morais e físicos. Mostrou‑se um cobarde, ademais, bebendo e fugindo, enquanto seus soldados heróicos pelejavam, morriam de fome e se esvaíam em sangue.

Tem sido feito o paralelo entre êle e Nero. Não vai nisso nenhum exagêro literário: hábitos dissolutos, matricídio, assassínio de seus irmãos, matança intencional de seus melhores auxiliares, ânimo de rapinante a inspirar julgamentos fictícios e sentenças de morte, bradam contra Lopes, do mesmo modo por que em tôda Roma se levantaram contra Nero. A pilhagem do país, do Tesouro Nacional e das fortunas particulares, constituía uso corriqueiro, pôsto em prática em benefício próprio ou no de sua amante. Cumpre acrescentar que tais acusações, por mais graves e horríveis sejam, foram plenamente provadas, não por adversários seus, mas pelo testemunho de assistentes e dos próprios executores de suas ordens insanas, pelo depoimento de autores de livros escritos por estrangeiros, inglêses, alemães, italianos, americanos, que viviam no Paraguai nos dias de seu govêrno. A hipótese mais indulgente e caridosa a formular, seria a de que era um louco homicida, ou de que as poucas gôtas de sangue índio que lhe corriam nas veias haviam causado, no torvelinho trágico da guerra sem dó, uma explosão da crueldade ancestral.

Ninguém o poderia ter previsto, pois Lopes, como poucos, sabia agradar e seduzir quando assim lhe aprazia. Uma possível exceção, todavia, talvez se lograsse apontar: o emissário blanco de 1862, o encontrou, ainda vivo o pai; Herrera, tratando‑o com lisonja quase servil, para conseguir seu intento de obter para o Uruguai a proteção paraguaia, abordou tanto o pai como o filho, êste principalmente, que ia dentro em breve ser o ditador da República. Da correspondência, hoje parcialmente conhecida, do distinto diplomata, parece possível inferir‑se que êle compreendeu o tôrvo personagem e tentou basear neste conhecimento o êxito de sua missão. Claro, que só inferiu o que Solano, dissimulador genial, quis deixar transparecer de seu modo de pensar, e sempre colorindo‑o pelo melhor.

p248 Dado como razoável, o que não era, o ponto de vista blanco fôra bem escolhido o momento: além da Banda Oriental, Entre Rios parecia um aliado possível. Após a derrota decisiva de Pavón, em 1861, Urquiza se sentira fundamente ferido em sua vaidade tanto por Mitre como por Buenos Aires, assim como pelos amigos e associados naturais de Mitre, D. Venâncio Flôres em primeira linha. Isso só fêz aumentar a tendência inata do Entre Rios pelos blancos do Uruguai; entre êle e Lopes II, houve troca de pareceres, e não se pode hoje ignorar que existiam liames estreitos, embora não escritos, que os solidarizavam em uma rota comum.

Não existia em Urquiza o estôfo de um homem de Estado; não passava de um condottiere, o último que figurou na história da Argentina. Não pensava êle em trair a Confederação, e sim desempenhar um papel isolado, no decorrer do qual a luta lhe permitiria derrotar e conquistar Buenos Aires e o Poder Executivo da República, assim tirando sua desforra de Pavón. Errara num ponto: se a vitória coroasse tais esforços conjuntos, com ela Lopes, e não êle, seria o único triunfador. Precisamente o papel reservado para o Uruguai, vítima a seu turno da mesma ilusão.

Quando Saraiva, Elizalde e Thornton encontravam tais oposições e relutâncias a quaisquer medidas pacificadoras, por parte de Aguirre, fundava‑se êste nas seguranças prodigalizadas por Herrera, já então seu ministro das Relações Exteriores, de que o Paraguai mobilizaria suas fôrças, o que correspondia a ter a antiga Cisplatina suas costas guardadas, e que Entre Rios seria um nôvo aliado a seu lado na guerra.

Neste ponto, o Brasil cometeu um êrro capital. As questões do Rio da Prata exigiam ser tratadas com a maior cautela. Saraiva era um dos espíritos que guiavam o seu país; por sua absoluta sinceridade, reserva, prudência e tato, havia impressionado profundamente o espírito público e o govêrno da Argentina, e lançado o traço que mais tarde evolveria até se tornar o tratado de Tríplice Aliança de 1865. Quando se retirou, em setembro, a sua vaga foi preenchida por outra culminância intelectual e política do Império, José Maria da Silva Paranhos, mais tarde Visconde do Rio Branco, talvez o mais eminente dos diplomatas brasileiros, que chegou em Buenos Aires a 2 de dezembro de p2491864, nomeado ministro com a missão de observar os acontecimentos e dirigir a rota internacional que o Império deveria seguir.

154. O almirante Tamandaré. — No intervalo, de setembro a dezembro, a direção dos acontecimentos recaíra no almirante Barão de Tamandaré.

Era êste um marinheiro valente e sem jaça, fogoso como a pólvora, leal como o aço, bravo como a própria bravura, sempre presente onde quer que chovessem balas e se distribuíssem golpes, correndo ao combate como água para o mar. Teve uma existência longa, e, até sua morte, sendo êle nonagenário, conservou seus velhos hábitos de guarda-marinha: só dormia sôbre tábuas, tendo por travesseiro um bloco de madeira.

Seu ilimitado patriotismo e sua devoção ao Imperador pairavam pelo mesmo nível; por êsses motivos todos, era imensamente querido, admirado e influente no Rio de Janeiro, de D. Pedro II ao mais modesto dos brasileiros.

Só sabia julgar os fatos de ponto de vista militar, e nunca imaginaria que, em combate, se as coisas chegassem ao choque das armas, pudesse o lugar do Brasil ser o segundo, nem que, se um alvo se pudesse conquistar pela fôrça, fôsse preferível dever a vitória a discursos de advogados ou discussões de oradores fiados em sua parolice.

Seria o último homem a compreender diplomacia: um representante genuíno do desdém e da desconfiança que por todos os tempos prevaleceram, nas fôrças armadas do Brasil, contra os parlamentares e a bacharelice.

A esquadra sob seu comando deu imediato início às represálias contra Montevidéu: a 20 de outubro, assinou com Flôres o acôrdo secreto de Santa Lúcia acêrca das reclamações brasileiras. O programa da ocupação do país pelas fôrças imperiais começou a ser pôsto em prática a 16 de outubro, tendo entrado uma pequena tropa pelo departamento de Cerro Largo, ocupando a vila de Melo. A coluna invasora, entretanto, sob o comando do general João Propício de Mena Barreto, e contando cêrca de 5 000 homens, só em dezembro se poderia mover.

Desde novembro, porém, os navios de Tamandaré cooperariam em Flôres, no primeiro assédio do Paissandu; Mena Barreto p250e Tamandaré estiveram presentes ao segundo, que terminou pela rendição da praça a 2 de janeiro de 1865. Chegava a vez de Montevidéu, sitiado por Flôres, e bloqueado por Tamandaré.

O almirante, positivamente, estava se excedendo, mas é impossível negar que êle seguia os sentimentos predominantes no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, exasperados pelas provocações e pela diplomacia bifronte dos blancos.

155. O Conselheiro Silva Paranhos. — Paranhos, entretanto, mais político e com visão mais alongada, desejava fazer cessar a sangueira, e ansiava por achar uma ocasião que lhe permitisse. Chegou mais cedo do que era lícito esperar. Os podêres de Aguirre terminavam a 15 de fevereiro de 1865. Seu sucessor, D. Tomás Villalba, presidente do Senado, pediu imediatamente ao ministro italiano, Barbolini, para intervir solicitando a paz.

Após debates, que duraram cinco dias, entre sitiantes e sitiados se chegou a um entendimento, sob os auspícios de Paranhos: uma anistia geral; um govêrno provisório por Flôres; eleições, no menor prazo possível, restituição das propriedades confiscadas: reconhecimento das reclamações brasileiras. Tal, a súmula essencial da Convenção de Paz de 20 de fevereiro de 1865.

156. Guerra do Paraguai. — Por maior fôsse sua importância, maior ainda era o interêsse que se deveria ligar às feições novas que os acontecimentos supervenientes estavam imprimindo aos aspectos políticos das questões do Prata. O impossível havia ocorrido. Como um estrondo de trovão, no Rio estalara a notícia de que o Paraguai sem pré‑aviso, nem declaração de guerra, havia detido e capturado um barco brasileiro que saíra de Assunção a bordo o presidente da província de Mato Grosso, e se apoderara de quantias remetidas para serviços públicos províncias pelo Tesouro Nacional. Pelo Império todo, o estupor só foi igualado pela grita, pela indignação e pela ânsia de desfôrço da injúria irrogada ao país.

Para ajuizar calmamente os fatos, impulsos puramente passionais são conselheiros perigosos. Sem dúvida, a razão invocada em Assunção, a ocupação de Melo pelas fôrças brasileiras, em outubro de 1864, nenhum pêso teria: estaria dentro nas normas p251jurídicas das atividades legítimas de um programa de represálias; nesse ponto, os motivos alegados pela República mediterrânea nenhuma base teriam. Quanto à captura de um navio brasileiro, ato essencialmente de guerra, sem prévia declaração de abertura de hostilidade, ainda é assunto de direito internacional não solvido até hoje.

Procedeu‑se recentemente a um inquérito sôbre o torpedeamento pela esquadra japonêsa dos navios de guerra russos ancorados em Pôrto Artur, em 1904, sem que tivesse havido prévia declaração de rompimento. A conclusão foi que os casos de aviso balanceavam os de ausência dessa formalidade, por alguns tida por essencial para legalizar os atos belicosos. Dominou o parecer que era questão mais moral, do que jurídica.

Na realidade, no caso nosso, o fato era irrelevante, por seu nulo influxo do ponto de vista militar, constituindo assim apenas a afirmação violenta do estado de guerra. Mas o efeito político foi imenso.

Em abono da habilidade previsora da política seguida por Lopes, deve ser dito que o momento havia sido admiràvelmente escolhido.

No Uruguai, podia contar com a aliança dos blancos; em Entre Rios, com a de Urquiza. O Império não dispunha de mais de 17 000 homens em armas, espalhados por seu vastíssimo território, embora no Rio Grande se achasse um pouco mais de metade dêsse ofetivo. Enquanto tal acontecia, o Paraguai possuía, em novembro de 1864, 80 000 soldados, e, em princípios de 1865, 100 000, mais, portanto, do que o máximo que o Brasil jamais pôs em linha em qualquer face da guerra; sendo que os maiores algarismos atingidos por nós foram menos de 68 000 combatentes, em abril de 1866.

157. Elementos contrários ao Uruguai. — Mas, já então começaram a exercer sua influência elementos que Lopes não possuía, possível menos no mesmo grau que seus adversários: a capacidade do comando militar e da direção diplomática.

Quando Aguirre o concitou a atacar pela retaguarda as tropas brasileiras, para assim obrigá‑las a levantar o sítio de Montevidéu, p252deu realmente Lopes início à marcha de seu exército, e pediu licença a Argentina para atravessar com suas fôrças Corrientes e Entre Rios. Mitre, evidentemente, negou a impetrada vênia. A isso o ditador respondeu com uma declaração de guerra à Confederação, e invadiu Corrientes, a contar naturalmente com a prometida colaboração de Urquiza. Falharam as previsões, entretanto. Em fevereiro, Flôres achava‑se a frente do govêrno uruguaio, aliado ao Brasil contra o Paraguai; a êste tratado Mitre, coagido pela invasão de Corrientes, só podia aderir: de qual, a aliança assim se tornou a Tríplice, por ato de 1 de maio de 1865.

158. Posição falsa de Urquiza. — Para Urquiza, a perspectiva havia mudado de todo ao todo. Se êle tivesse rompido em rebeldia franca contra Buenos Aires, e recebesse o auxílio de Lopes, ainda teria podido invocar precedentes, e discutir a legitimidade de sua posição, embora seus entendimentos não escritos com o ditador paraguaio já valessem por ato de traição contra a Argentina. Já agora, esta fôra invadida por tropas estrangeiras; em sua situação de membro da Confederação, não protestar nem agir contra o invasor equivaleria a tornar meridiana sua felonia, e lhe não permitiria mais levantar a cabeça perante seus patrícios. Ademais, a seus olhos de condottiere os acontecimentos assumiam aspecto inteiramente diverso, após a derrota dos blancos uruguaios aos quais estava aliado. A previsão não parecia risonha nem prometia êxito.

Permaneceu inativo, portanto. De fato, assim êle traía a todos. Cuidou o Brasil de o tornar inofensivo. Urquiza, embora imensamente rico, tinha pela fortuna amor imoderado; o general Osório, o futuro Marquês do Erval, conhecia‑lhe o fraco e deliberou se servir dêle: o exército brasileiro necessitava urgentemente de cavalhada, e Osório ofereceu ao chefe de Entre Rios comprar quantos animais fôsse possível adquirir nessa província. Assim foi que cêrca de 30 000 foram comprados por preço altamente remunerador, pràticamente todos quantos Entre Rios podia fornecer; correspondia tal aquisição ao desarmamento do possível adversário, pois os entre-rianos, ótimos e admiráveis cavalarianos, não constituíam senão fraca infantaria. E por esta forma, Urquiza foi anulado como valor combatente.

p253 159. Erros militares de Lopes. — Ainda cometeu Lopes outro êrro militar capital: dividiu suas fôrças e mandou‑as para Norte e para Sul. Para Norte, em rumo de Mato Grosso, em dezembro de 1864, onde nenhum objetivo militar existia, pois a conquista do território constituía mero alvo geográfico; golpe de espada na água, nem sequer deixaria traços na conduta geral da guerra, e apenas serviria para demonstrar, pelo valor da resistência brasileira, em Dourados e Coimbra, o heroísmo e abnegação patriótica da gente nossa. Para Sul, rumo de Corrientes, que suas tropas ocuparam com pequeno, mas cruel, derramamento de sangue argentino, daí para o rio Uruguai, quanto a uma de suas colunas, e para o Brasil, quanto a outra. A primeira foi destruída na batalha de Iataí, a 17 de agôsto; a segunda apoderou‑se da cidade de Uruguaiana, mas aí foi sitiada e forçada a se render a 17 de setembro de 1865.

Pela mesma época, a esquadra sob o comando do almirante Barroso puxou os fôgos, e subiu o rio Paraná, e aí, a 11 de junho dêsse ano, destruiu a frota paraguaia.

Além das baixas em combate, as fôrças haviam sofrido grandemente de epidemias reinantes nessa região; o Dr. Cecílio Báez antigo presidente do Paraguai, em publicação recente declara que, em fins de 1865, antes portanto da invasão dos aliados no território paraguaio, o primeiro exército de Lopes, de cêrca de 64 000 homens, estava pràticamente destruído.

Grande parte das operações haviam recaído sôbre a marinha, pois o rio Paraná era um longo corredor fortificado, pela corrente do qual os navios de guerra tinham de subi águas acima, até Assunção, a fim de abrir o caminho para os transportes de todo gênero. Muitos dos encontros foram verdadeiras batalhas navais, travadas sob os fogos cruzados das baterias marginais nos trechos estreitados do caudal. Mais de um constituiu ação gloriosa; Humaitá, a 19 de fevereiro de 1868, acima de todos. Pela vez primeira, alguns anos antes de Lissa, a tática do ataque pelo choque de proa sôbre o navio abordado foi usada pelo almirante Barroso, em Riachuelo, a 11 de junho de 1865.

1866 presenciou a travessia da fronteira fluvial para entrar no território inimigo. A batalha de Tuiuti foi um desastre para Lopes, que tentou solicitar a paz. Fê‑lo, entretanto, exigindo p254condições inaceitáveis. Recusava deixar a presidência, e os aliados estavam convencidos de que êle, êle tão sòmente, era o responsável pela cruenta luta, e não, por certo, o admirável povo de Paraguai. Tanto que, no tratado da aliança, figurava uma cláusula para nunca se tratar com El Supremo.

Não é êsse o lugar próprio para se discutir o lado militar da campanha, assunto marginal ao da formação histórica do Brasil. Lembremos, apenas, que após três anos de duro e sangrento sacrifício, a 5 de janeiro de 1869, Assunção foi ocupada. Desde a travessia do Paraná, ia Lopes fugindo: com êsse período coincide a exacerbação de suas atrocidades. Ocupada Assunção, renovou‑se com redobrado ardor a perseguição dos restos do exército paraguaio. Terminou a peleja a 1o de março de 1870, quando Lopes foi morto perto da fronteira brasileira, em Cerro Corá.

Coragem, audácia, heroísmo, multiplicaram‑se em ambos os lados do conflito. O Brasil, a Argentina e o Uruguai podem orgulhar‑se de seus soldados. Mas igual homenagem deve ser tributada aos admiráveis filhos do Paraguai. Valentes e obedientes, sofredores sem um gemido e sem recuos, mesmo nas maiores agruras da luta, combatiam, venciam ou morriam com inteira ausência de receios e absoluta devoção a seu país. Oferecendo‑se‑lhes garantia de vida se se rendessem, recusavam, declarando não terem ordens para a aceitar. No Brasil, inspiraram a maior estima e admiração, iguais apenas em sua intensidade ao sentimento de horror causado pela propositada crueldade de Lopes, sua louca fúria homicida, seu desprêzo atroz e monstruosamente egoísta pelo bem‑estar de seu povo e por seus interêsses.

Hoje em dia, unidos todos êsses guerreiros, amigos e adversários, em um sentimento geral de respeito, de ardente entusiasmo e de veneração, todos os brasileiros, sem distinção de opinião, oferecem à memória sagrada dos lutadores a homenagem sincera de seu assombro e de sua gratidão.

Dois estrategistas revelaram‑se na campanha: o Duque de Caxias, comandante do exército imperial, e, após a retirada de Mitre, general em chefe de tôdas as fôrças aliadas; o Conde d'Eu, seu sucessor, durante a dificílima fase final da guerra, a chamada Campanha das Cordilheiras. Chefes táticos, condutores de soldados, dedicados até à morte à causa que defendiam, foram inúmeros p255nos quatro grupos nacionais. Quanto aos soldados, não há elogio que possa exagerar seu mérito.

Fugido Lopes, desde 15 de agôsto de 1869 se instalou em Assunção um Govêrno Provisório. Com êste, o Brasil e a Argentina assinaram um tratado preliminar de paz em 20 de junho de 1870, tratado ao qual o Uruguai aderiu a 1o de agôsto. O tratado defensivo, entretanto, foi de elaboração difícil; não por óbices suscitados pelo Brasil, mas por exigências oriundas da Confederação Argentina.

Tais os obstáculos, que, sendo imprescindível pôr têrmo a êsse demasiado longo período de paralisação das negociações, o Império decidiu agir, e, em janeiro de 1872, assinou um complexo de quatro tratados, sôbre paz, fronteiras, extradições, comércio e navegação. Os limites eram aquêles mesmos que o Brasil sempre reclamara, sob o princípio do uti possidetis. Permaneceu ainda aberta longa discussão com Buenos Aires, objeto das missões de D. Bartolomeu Mitre (1872) e de D. Carlos Tejedor (1875) ao Rio, discussão que terminou pela Conferência de Buenos Aires, em 1876.

160. A opinião pública de Lopes, na América do Sul. — Era favorável ao Paraguai a opinião geral da América do Sul. Existia afinidade natural por parte dessas Repúblicas tôdas para com um país onde vigoravam instituições do mesmo jaez, atacadas por uma Aliança na qual predominava o Império único do Continente. Além do que, considerada no mapa, a Aliança era um grupo esmagador a cair sôbre pequeno trato central da Sul-América, milhões de aliados a investirem contra um escasso milhão de defensores locais. Finalmente, a diplomacia de Lopes havia abundantemente subsidiado a publicidade, com o fito de criar uma corrente internacional de sentimentos que lhe fôsse simpática. Elementos morais, devemos acrescentar, pesavam muito na direção da guerra. Foi sòmente após o fim da guerra que as condições reais da luta foram conhecidas e tomadas em consideração.

República, o Paraguai certamente não o era: Lopes II havia herdado o país pelo testamento paterno: pouco acima de escravos eram seus habitantes; não havia lei, senão uma vontade autocrática arbitrária. vidas, recursos, fortunas, honra dos indivíduos, p256tudo estava a disposição do El Supremo, sem possibilidade de apêlo. Além disso, era seu intuito proclamar‑se imperador de um nôvo Império, constituído de seu próprio país, e de Corrientes, Entre Rios e Uruguai conquistados.

A guerra fôra preparada com larga antecedência, e a prova está na desproporção das fôrças em confronto no comêço da contenda: de 80 000 a 100 000 homens do lado do Paraguai; 17 000, apenas, postos em linha pelo Brasil. Como era evidente, no decurso das operações os Aliados reforçaram seus contingentes, mas de modo e em proporção inteiramente comparável ao que o ditador fizera: nunca o Império, por exemplo, teve no teatro das hostilidades mais de 68 000 baionetas; isto mesmo, uma só vez, em abril de 1866. Se o exército paraguaio se dissolveu e destruiu, foi conseqüência da incapacidade de Lopes, quer militar, quer diplomática.

Cumpre sempre ter no espírito que os Aliados constantemente nutriram a convicção de que os sentimentos do Paraguai eram diferentes, por completo, dos de seu govêrno. Foi o que solenemente declararam na abertura das hostilidades, e o que ficou provado no desenrolar dos acontecimentos, até a inegável massa de depoimentos paraguaios de 1869 até hoje. Nessa persuasão agiram durante tôda a luta: o Império, principalmente, para o qual a base de sua política no Rio da Prata era, como inda é, a independência do Paraguai e do Uruguai.

A convicção fundamental da Aliança basava‑se no fato de ser Lopes a causa, e a causa única, de todos os dissídios, e na crença meditada de que, enquanto fôsse chefe de govêrno, as dificuldades sempre renasceriam. Daí, a firme determinação de o derrubar e de o separar de qualquer contato com o Paraguai. Assim ocorreu pela sua morte em Cerro Corá, mas isto foi mera casualidade, e o mesmo resultado poderia ter sido obtido por seu exílio do país, ou por sua detenção. Ademais, é necessário não olvidar que a guerra não é tarefa que se faça de luvas brancas, e que ela se desenrola no sangue e na morte.

Pelos mesmos motivos, Mitre repeliu as propostas de paz oferecidas pelo ditador em Iataiti Corá, em setembro de 1866: êste havia recusado a exigência fundamental da Aliança, seu próprio afastamento da presidência e do país.

p257 Idênticas as razões do Brasil, declinando as ofertas de mediação dos Estados Unidos, em princípios de 1867.

Em ambas as ocasiões, a guerra teria sido vencida pelos Aliados, mas teriam permanecido as causas profundas que impediam uma paz duradoura, e isto enquanto o principal perturbador desta possuísse autoridade para dar largas à sua ameaçadora política de conquistas. Não se deve esquecer que tal atividade significava: Corrientes e Entre Rios a se separarem da Argentina; a anexação do Uruguai.

No período final do conflito, o Brasil desempenhou o papel principal, e, por isso, sôbre o Império recaíram acusações de todo gênero.

161. Fim da guerra. — Lopes nutria por Napoleão veneração ilimitada, por mais longe dêsse ideal êle se revelasse. Num ponto, contudo, sua própria sorte coincidiu com a biografia do corso genial: o clamor geral contra a fase final de sua existência.

O dever político da Inglaterra para com o Imperador vencido foi tão claramente explicado por lorde Roseberry, após as experiências da ilha de Elba, constituído em reino para o herói derrotado, e a de Waterloo, que suas palavras poderiam quase ser reproduzidas aqui quanto ao ditador do Paraguai.

Seu afastamento do cenário internacional sul‑americano era dura, mas mera necessidade. O povo da República central não reagia contra sua direção, à qual obedecia sem sombra de discussão; assim o havia plasmado sua educação secular. Os acontecimentos tormentosos de 1864‑1870 ressurgiriam de nôvo, se seu autor continuasse em seus cargos públicos, ou mesmo em proximidade tal país, que para êste pudesse inopinadamente voltar. Nenhuma evidência, nenhuma esperança, sequer, se poderia obter de que êle houvesse mudado de orientação em sua nefasta política internacional.

Santa Helena, Doorn, a Campanha das Cordilheiras, não são soluções, preferidas entre várias, senão duras e severas imposições de segurança pública. Quanto a imperialismo, o Brasil nunca mudou suas exigências nos tratados lindeiros, e constantemente exigiu as fronteiras, ou mesmo menos do que essas, pelas p258quais havia combatido desde a Independência, limites que, embora resultassem principalmente de convenções antigas, reclamavam exclusivamente, em nome de sua norma internacional, o uti possidetis.

Sôbre o Império, a guerra pesou formidàvelmente: 33 000 mortos, 600 000 contos gastos, tal foi o sombrio passivo. Mas, em compensação, dessas três guerras, da de 1851‑52 com a Argentina e o Uruguai de Oribe, da de 1864‑65 com o Uruguai dos blancos, e da de 1864‑70 com o Paraguai, resultaram intimidade maior e entendimento melhor e recíproco entre os quatro povos. Claro, ainda ficaram muitas mágoas, rancores lamentáveis, e atritos graves; em conjunto, entretanto, aprenderam todos a melhor se conhecerem uns e outros; a desconfiança e a má vontade principiaram a se dissipar.

Não perduraram, imorredouros, os ódios inexpiáveis; passo importante fôra dado rumo da paz permanente, quando o perigo e a ameaça, que pesavam sôbre o Rio da Prata inteiro, através da ambição de Lopes, foram afastados do cenário sulino.


Anotação de Thayer:

a Para Domingo Faustino Sarmiento, ver o breve artigo biográfico em Galdames (tr. Cox), History of Chile, p521.


[image ALT: Valid HTML 4.01.]

Página atualizada: 12 Out 13