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Capítulo 8

Esta página reproduz um capítulo de
Formação Histórica do Brasil
de
João Pandiá Calógeras

Companhia Editora Nacional
São Paulo, 1966

O texto é de domínio público,
exceto para meus anotações.

Esta página foi cuidadosamente revisada
e la creio livre de erros.
Se você encontra um erro, porém,
por favor me avise!


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Capítulo 10

p177 Capítulo IX

Pacificação progressiva das lutas internas. Problemas platinos. Equilibrio dos podêres. Caseros

Inegàvelmente a maioridade de D. Pedro II fôra um golpe de Estado.

Nessa medida política, bem se pode dizer, tôda a nação havia colaborado. Promovido embora pelos liberais, contra os conservadores, os mesmos adversários concordavam no ponto essencial da questão: a necessidade da iniciativa; divergiam apenas no detalhe acessório da data em que o acontecimento deveria ter lugar.

107. "Journée de dupes". — Em ambos os grupos, entretanto, reinava intensa desilusão: embora alguns conservadores, e entre êles chefes dos mais notáveis, houvessem cooperado no movimento político, eram êles os derrotados, o seu partido fôra apeado do poder; os liberais, vencedores do dia, viam a vitória monopolizada por dois elementos, apenas, de seu partido, valiosos por certo, mas que não representavam o grosso de suas tropas.

O Gabinete da Maioridade, como era chamado, entre seus seis membros contava dois pares de irmãos, os dois Andradas e os dois Cavalcantis e por isso se apontava como uma oligarquia, uma associação familiar. O quinto ministro, Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho, era um estadista capaz e um caráter sedutor; suspeitava‑se, entretanto, de intimidade com os conselheiros áulicos. O último dos seis, que lhes sobreviveu por p178longos anos, Antônio Paulino Limpo de Abreu, era o único do quem se dizia estar em seu lugar. A organização surgira dos acontecimentos, pois tais representantes da Nação haviam chefiado a mudança política, inconstitucional embora.

108. Antônio Carlos. — Personalidade dominadora nesse conjunto, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade Machado e Silva era eloqüente, patriota, liberal, erudito, capaz e entusiàsticamente brasileiro. Nas Côrtes portuguêsas de Lisboa, em 1822, fôra o líder da representação ultramarina. Cortejava a glória mais do que a coerência de idéias e de conduta; por êsse motivo, a Assembléia Constituinte de 1823, por seu intermédio, mais mal fizera do que bem. Nessa ocasião êle, e seus dois irmãos, José Bonifácio e Martim Francisco, apesar de seus eminentes serviços à Independência, haviam sido exilados para a França.

Nenhuma noção possuía de administração; hesitava quando o dever era agir; sinceramente liberal em seus intuitos, inspirava‑se contudo nas vistas e nos interêsses de seu partido. Em face da rebelião do Rio Grande do Sul, aspirava sem dúvida debelá‑la, mas seus sentimentos, perfeitamente louváveis embora inoportunos naquele momento, impunham‑lhe a cessação do derramamento de sangue nessa luta que já durava cinco anos, e queria chegar a tal pacificação negociando acôrdos. Iniciou sua tarefa de modo tão incapaz e saltitante, que conseguiu apenas enfraquecer a posição oficial do Império na província, e, conseqüência natural, logrou sòmente prolongar a revolta por mais cinco anos.

A região sulina estava sendo governada pelo general Soares de Andréia, um soldado firme e enérgico, que havia dado provas de si subjugando as revoltas e pacificando duas províncias: Pará e Santa Catarina. Era seu método combater com tôdas as suas fôrças as insurreições, sempre disposto, entretanto, a prestar ouvido e dar seu concurso às propostas reais de submissão, não olvidando nunca de que se tratava de contenda entre irmãos do mesmo sangue.

O dever de Antônio Carlos devera ter sido dar ao delegado do Govêrno Imperial, no teatro da luta, todo amparo, apoio, e colaboração. Ao invés disso, começou a receber cartas dos chefes p179rebeldes e a agir de acôrdo com êsses, sem se preocupar com Andréia. Não era, êste, homem a ser desconsiderado e ficar calmo ante a descortesia. Resignou imediatamente seu cargo de confiança. As novas autoridades nomeadas não se revelaram à altura da missão. E, por essa forma, os representantes do Govêrno Central eram escarnecidos e objetos de mofa por parte dos insurretos. Tal era sua incapacidade evidente, que se tornou claro que não mais se poderiam tolerar. A demissão delas originou a queda do gabinete, após a curta vida de oito meses. Piorara e se enfraquecera ainda a posição do govêrno no Rio Grande, enquanto seus adversários viam suas fôrças e seu prestígio se exalçarem pelas próprias faltas de seus oponentes.

109. Restauração da autoridade. — Em todo caso, e malgrado tudo, o início do reinado pessoal de D. Pedro II, embora fôsse apenas um rapaz de quinze anos, pusera afim à instabilidade inerente à fraqueza dos governos provisórios das Regências. Na Bahia, cessaram os tumultos em 1838; os do Pará já eram coisa do passado, desde 1837; Santa Catarina fôra pacificada em 1840. Vinha agora a vez do Maranhão, onde finalmente se restaurara a tranqüilidade em 1841, a esforços do coronel Luís Alves de Lima e Silva, que, por tais serviços relevantes, recebeu o título de Barão de Caxias, o primeiro de sua longa lista de distinções nobiliárquicas, coroada pela promoção a Duque de Caxias após a Guerra do Paraguai, de que saíra vitorioso. Em todos êsses movimentos sediciosos, era sem valia, a bem dizer, a tendência separatista, pois sempre proclamavam os facciosos que sua peração terminaria e que voltariam ao grêmio da Pátria comum, logo que o imperador fôsse maior e iniciasse seu govêrno pessoal.

O único, realmente sério, conflito desintegrador era o do Rio Grande do Sul. Aí, mesmo com exceções raríssimas, tôdas as notícias e informes apontavam para a reunião ao Império, mediante certas condições relativas à economia local.

110. A anistia de 1840. — Aí se acha a explicação do fato de conceder o Gabinete da Maioridade, a 22 de agôsto de 1840, anistia aos rebeldes que deliberassem depor as armas e entregar‑se à autoridade legal antes de uma data prefixada. Pela p180situação hesitante do govêrno no Sul, o efeito da medida foi quase nulo, e, pràticamente, não diminuiu o número de insurgentes.

A falência do gabinete em solver o problema da guerra civil, as largas divergências de idéias e de rumos entre os ministros chegaram a culminar no dissentimento sôbre se se devia conservar o se demitir os representantes militares do Império no Rio Grande. Parece, entretanto, que êsse foi mais um pretexto, do que a causa real da demissão do ministério. Tanto mais quanto, dos seis ministros, o único que não deixou sua pasta, Aureliano, era o único membro conservador do Govêrno da Maioridade e o único a manter constante contato com o jovem imperador e seus conselheiros conservadores.

Deve‑se levar muito em consideração que, após as emendas quase republicanas do Ato Adicional de 1834, e a incurável paralisia daí decorrente no funcionamento das leis constitucionais, a tendência corrente na opinião pública era para se pôr um paradeiro à precipitação da política e da administração em rumo de um estado de coisas que tornava o Brasil ingovernável. Tal reação, oportuníssima, achou sua tradução na Lei Interpretativa de 1840, mas desde 1837 havia começado a influir nos trabalhos da Assembléia. Ainda por se achar a medida insuficiente, foi que a Maioridade se deliberou e levou a efeito, apesar de sua manifesta inconstitucionalide.

Movidos por conveniência de partido, os liberais haviam assumido a direção do movimento, mas, de fato, êles se achavam agora em situação esquerda. Viam‑se forçados, êles liberais, a se opor à corrente de conservantismo à qual deviam sua ascensão ao poder; corrente formada em quase todos os elementos da alma popular e do critério dos estadistas; aspiração que estava a exigir novas e mais estringentes reformas na administração e na justiça.

No círculo dos conselheiros mais íntimos do imperador, essa era a tendência dominante. Por tática partidária, haviam os liberais ganho a campanha na corrida de obstáculos da maioridade: haviam destarte provado sua energia e a habilidade de seu comando. Não se podia, contudo, deduzir daí uma adesão do país todo ao programa liberal em seu conjunto. Soprava o p181vento de outro quartel de horizonte político: o reforçar a autoridade, por demais enfraquecida pelas experiências liberais desde os dias da Abdicação.

111. Demissão do gabinete maiorista. — Aí se encontra a causa real, profunda, da demissão do gabinete majoritário, em 23 de março de 1841, pois o Parlamento, que representava o país, era puramente conservador. E a demonstração foi dada, pelo voto de duas leis importantíssimas, tidas por indispensáveis para pôr um dique às tentativas de excessiva audácia, e para punir violações da lei: tal a origem das resoluções de 23 de novembro criando o Conselho de Estado, e da de 3 de dezembro de 1841 emendando o Código do Processo.

Após tais acontecimentos, foram os liberais postos fora dos conselhos de govêrno. Nova crise, porém, ia se avizinhando. 1841 era o último ano da quarta legislatura; o Gabinete da Maioridade sabia quanto sua posição era precária, e haviam tomado providências para preparar as eleições de modo a que fôssem bem representados os liberais na Câmara vindoura. Havia sido esta uma das acusações mais ardentes movidas contra Antônio Carlos e seus amigos.

As manobras eleitorais excederam tôdas as expectativas, e as eleições revelaram violências e desrespeitos à lei e à moral, que ultrapassaram todos os exemplos passados. Talvez, nas reclamações e na grita, houvesse alguma demasia de candidatos derrotados: partiam de oposicionistas. Mas o nôvo gabinete apontou para provas e exemplos das fraudes. Provàvelmente, muita coisa era verdadeira.

A 1o de janeiro de 1842, foi dissolvida a Câmara dos Deputados de modo legal, ainda no decurso das sessões preparatórias. Os liberais, já furiosos com as leis de 1841, perderam a calma com a dissolução: organizaram revoluções armadas, sob a chefia de seus maiorais. Em São Paulo, Feijó e Vergueiro eram os guias dos sediciosos.

112. Missão do Barão de Caxias. — Recebeu ordens o Barão de Caxias para restaurar a ordem e a lei nas províncias revoltadas. Em junho de 1842, foi esmagada a revolta de São Paulo. Em agôsto, a de Minas foi vencida. Firmou‑se o respeito à p182autoridade e à Constituição. Os responsáveis pelos movimentos revolucionários foram presos, julgados e condenados. Reinava agora a paz no Império, com a exceção única do Rio Grande do Sul. O Govêrno Imperial e o Imperador, prestigiados e cercados do respeito público, estavam em condições de iniciar um reinado de tranqüilidade e progresso.

Rio Grande tornava‑se agora o único ponto negro do horizonte político. No teatro internacional, a perspectiva do problema só podia piorar a medida que corria o tempo.

113. Vitória de Rosas na política platina. — Achava‑se Rosas a braços com a coalizão em que figuravam Rivera, os unitários argentinos e, através de Rivera, os rebeldes rio‑grandenses. Oribe, eleito presidente do Uruguai por influência de D. Frutuoso, tornara‑se inimigo de seu grande eleitor, e aparceirara‑se com D. Juán Manuel, do qual se fêz general em um dos exércitos federais, depois de ter abandonado Montevidéu e a presidência, em outubro de 1838, cedendo à fôrça das armas do partido colorado, nome dado aos partidários de Rivera. em 1840, fôra vencida a hostilidade francesa contra Buenos Aires, com escassa fama e brilho nulo para a esquadra de bloqueio européia. Imensamente, crescera o renome do vencedor, tanto na América como na própria Europa. Era fortíssima sua posição, tanto polìticamente, pois simbolizava a causa da liberdade e da independência, como moralmente, pois combatia contra invasores unidos a argentinos subsidiados pelo ouro francês, e apoiados em suas armas e fôrças.

Pertencem tais glórias à história de Buenos Aires, e por isso não lhe mencionamos detalhes. Diremos apenas que daí resultaram o destroçar da invasão comandada pelo general Lavalle, a morte dêsse heróico chefe e o desbarato das insurreições locais e dos tumultos provinciais fomentados pela Comissão Unitária Argentina de Montevidéu.

Os inimigos do ditador de Buenos Aires eram agora Rivera, os restos debandados dos refugiados unitários do Uruguai, fôrças de Corrientes adversas a Rosas e, sempre através de Rivera, os insurgentes do Rio Grande, embora êstes não tomassem parte ativa na invasão da Argentina. Desde 1838, existiam acôrdos p183entre D. Frutuoso e os republicanos do Rio Grande, a princípio em reserva, depois transformados em tratados solenes. No Brasil, à exceção dos Farrapos hostis ao Império, a opinião pública favorecia geralmente o dominador da Argentina, pela sua nobre e altamente inspirada resistência às exigências francesas.

Vencida a coalizão das Províncias do Norte, dissolvidas suas fôrças, chegara o tempo de suprimir os distúrbios do litoral, e a essa tarefa dedicou D. Manuel Oribe seus talentos e esforços, general que era agora do exército de vanguarda da Confederação. Rivera, apesar de sua relutância em enfraquecer suas tropas, não podia, como aliado que era das províncias de Corrientes, Santa Fé e Entre Rios, deixar ao abandono as fôrças destas circunscrições e teria de lhes ir em auxílio, desde que fôssem ameaçadas.

114. Derrota de D. Frutuoso Rivera. — Deu‑se o choque a 6 de dezembro de 1842, em Arroio Grande. Foi decisivo o encontro. Quase 8 000 homens por parte de Rivera, e outros tantos aproximadamente, pela de Oribe. Êste último destroçou a coluna de seu adversário, e D. Frutuoso mal escapou à morte, a cascos de bagual, fugindo de volta para o Uruguai, para salvar a própria vida.

Ruíam por terra os planos grandiosos de Rivera, para construir um Uruguai-Maior. Nunca mais os combates renascentes tiveram por teatro o solo argentino, até a campanha de 1851‑52, que findou em Caseros. Agora, era o Uruguai quem tinha de suportar o pêso das batalhas.

Para os federais argentinos, a situação ostentava‑se cheia de dificuldades, quer financeiras quer morais. O Comitê Unitário de Montevidéu estava fazendo temível campanha de propaganda contra seus adversários, campanha na qual a verdade era misturada com calúnias, a fim de dar ao mundo civilizado a impressão de que Buenos Aires era o reino do terror, inteiramente dominado pelo assassínio, vinganças, pilhagem e crueldades, tudo em ordem a só obedecer a palavras oficiais proferidas pelo Rosas, através de uma associação de bandidos, a Sociedad Popular Restauradora, vulgarmente denominada a mazorca.

p184 115. Campanha exagerada contra Rosas. — A campanha de panfletos, artigos de jornais, de revistas, de livros abrangeu a América e a Europa, e conseguiu colocar a Argentina, suas autoridades e, principalmente, o seu ditador sob o aspecto de terra de monstros, inauditos até então. Contra isto protestavam os ministros diplomáticos, tanto europeus como americanos, mostrando a mentira das acusações e apontando para os numerosos compatriotas seus que ali viviam e prosperavam, na paz e no progresso. Estatísticas eram publicadas, provando a riqueza do país, rumo crescente. Documentos eram divulgados, evidenciando que, nos números das terríficas hecatombes que se diziam provenientes das listas de proscrição rosistas, figuravam as baixas dos combates entre as parcialidades contendoras, e, essas mesmas, muito aumentadas; que inúmeras personalidades, apontadas como assassinadas, estavam perfeitamente vivas e em absoluta saúde e tranqüilidade. Nada valia para desfazer a calúnia, e, até hoje, Rosas é tido como o mais vil dos degoladores.

A Sociedade Restauradora contava em seu seio cidadãos preeminentes da capaz; é possível e natural que incluísse alguns facínoras e fanáticos partidários; em momentos de exaltação pública e de inexpiável exacerbação de paixões, há sempre uma turba de criminosos e de malfeitores que emerge dos bas-fonds da sociedade, prontos aos piores excessos, sem que para tal necessitem incitação, ordens ou instruções dos chefes autorizados dos movimentos políticos ou de vultos de nota.

A honra da História exige sejam revistos tais juízos difamadores. Sem dúvida, o período era de crueldades e de ausência de piedade; mas ocorriam tais crimes em ambos os grupos partidários, e, quanto a Rosas, parece ter sido um dos corações menos calejados na prática de tais horrores, dos mais propensos a evitar o sofrimento humano. À base das acusações e dos boatos exagerados, se encontra o ódio de partido, o ôte-toi de là que je m'y mette, o invejoso rancor de inimigos de espírito mesquinho, incapazes de fazer o que êle realizou.

Certamente, não era êle um chefe blandicioso ou de mãos leves; possuía um gênio voluntarioso, um caráter incapaz de se dobrar, cruel como eram todos seus semelhantes naquela época na Argentina. Mas era também um estadista, um homem de p185ideais e de execução, qualidades que se não topariam tão freqüentemente quanto fôra para desejar.

Os principais autores da formação dêsse ambiente de exagêro e de calúnia eram os membros da Comisión Argentina unitária de Montevidéu. Entre êles se achavam homens do mais alto valor pela cultura, talentos e coragem. Cegava‑os, porém, a paixão partidária. Foi possível provar que traíram sua pátria, apelidando para a invasão estrangeira e o ouro francês para vencer sua própria terra natal, com o único intuito de dar pasto a seus alvos egoístas de soldados de um grupo político. Rosas, entretanto, defendia a liberdade e a Independência e o respeito próprio da Confederação.

116. Nova tentativa mediadora anglo-francesa. — Assim como haviam procedido por ocasião do bloqueio francês, tão humilhantemente coroado pelo pedido de desculpas da esquadra francesa e a salva de satisfações ao pavilhão argentino, em 1840, assim agora tocaram outra nota: uma mediação anglo-francesa para pôr um têrmo aos tumultos platinos.

Fôra tentada, em 1841, pelo ministro inglês em Buenos Aires, encontrando a repulsa de Rosas. Em 1842, renovou‑se a tentativa por iniciativa conjunta da Inglaterra e da França; tendo sido novamente repelida a proposta, o ditador anexou à sua resposta uma longa exposição dos motivos que desaconselhavam tal medida: a impossibilidade de chegar a acôrdo com Rivera. Veio então a réplica ameaçadora: os mediadores por iniciativa própria poderiam recorrer a outros meios para forçar a navegação pacífica dos rios. Tal aviso, premunitório de violências, fôra comunicado em novembro de 1842. Em dezembro, Rivera foi absoluta e irremediàvelmente destroçado em Arroio Grande.

O nôvo aspecto do problema, com a perspectiva de se transformar a mediação em um possível beligerância dos principais podêres da Europa, trouxe a Rosas grande ansiedade. Apesar de sua desconsideração e de sua inimizade pelo Império, encarregou seu plenipotenciário no Rio, o general Tomás Guido, da missão de negociar um tratado ofensivo e defensive com o Brasil. O Gabinete Imperial estava disposto a entrar nesse pacto. Caxias, no Rio Grande, aconselhava chegar a têrmos com um p186dos beligerantes platinos, de preferência Rosas, pois Rivera não merecia confiança e haviam recentemente celebrado com os rebeldes rio‑grandenses um tratado de aliança.

117. Desconsideração de Rosas ao Império. — Após um par de meses, fêz‑se o acôrdo assinado pelos plenipotenciários e ratificado pelo Imperador, em março de 1843. Por essa ocasião, conhecia Buenos Aires que Rivera havia sido derrotado em Arroio Grande, e sabia que a intervenção franco-inglêsa não parecia ameaçadora. O ditador, indiferente ao fato de que ofendia gratuitamente o govêrno brasileiro, recusou ratificar a Convenção do Rio, por parte da Confederação. O motivo, ou pretexto, alegado, era que o ato diplomático não mencionava os podêres presidenciais de Oribe, considerados legais por D. Juán Manuel.

Em realidade, obedecia a dois dos três sentimentos dominantes, ou antes preconceitos, causadores dos piores reveses da diplomacia argentina por aquêles tempos. Rosas aspirava a reconstituir o antigo vice‑reino de Buenos Aires, e isso significava reanexar o Paraguai e o Uruguai; motivo êsse que o levava sempre a ter um ponto de apoio e de intervenção na antiga Banda Oriental, sempre que estivesse em posição de poder influir aí.

Intensamente pessoal, odiava a Rivera como a um elemento indigno de confiança, a princípio, e, mais tarde, por essa razão e mais por seus planos de criar um Uruguai-Maior, pela secessão de Entre Rios e de Corrientes da Confederação. Por tais fatos, protegia e fazia causa comum com Oribe, a quem podia dominar.

Forçou êste último a recuar de sua renúncia à presidência do Uruguai, e, assim, criou o pretexto preciso para argumentar que êste, e não Rivera, era a autoridade legítima da pequena República: dando, com tal pretensão indefensável, lugar a que Oribe, com tropas argentinas e recursos dêste país, pudesse invadir a margem oriental do Corrientes e assediar Montevidéu. Nenhuma confiança nem simpatia tinha pelo Império, que êle acusava de tendências reconquistadoras em ambas as margens do Prata.

Se pôsto em vigor, o tratado teria consolidado a independência do Uruguai, e pôsto de lado tanto Rivera como Oribe; p187esta República não mais poderia ser reanexada pela Argentina, e o principal fator de tal mudança seria o Brasil, cujo prestígio cresceria, muito além dos desejos e dos receios do ditador.

118. Rejeição do tratado celebrado com o Brasil. — Foi um grande êrro cometido pelo govêrno argentino. Nada queria o Império, senão ver sossegada uma permanente fonte de distúrbios e de conflitos em um ponto sensível da fronteira. A prova disso foi dada pelo tratado da Tríplice Aliança de 1851, contra Rosas, e pela convenção particular entre o Brasil e Uruguai, sempre seguindo a mesma orientação.

Em 1843, o Brasil admirava Rosas e acreditava que êle merecia confiança. Após a rejeição do tratado, além da ofensa não provocada feita a nosso país, tornara‑se público o malquerer de nosso vizinho contra nós. Era, pois, mera prudência natural a conseqüência: o Império, neutro no conflito vigente, devia guardar‑se e ter cuidado em não ficar envolvido nas complicações previsíveis.

A ambas essas preocupações obedecia o enviar duas missões ao estrangeiro: uma, em 1843, a Montevidéu, confiada ao deputado Cansansão de Sinimbu, como observador qualificado dos acontecimentos: outra, em 1844, à Europa, na qual o Visconde de Abrantes teria de estudar uma intervenção conjunta do Brasil, da Inglaterra e da França, para pacificar o Uruguai. Oportunamente, examinaremos ambas.

Se o tratado tivesse sido ratificado pelo ditador argentino, provàvelmente a ordem teria sido restabelecida dentro em pouco tempo, evitando os atritos que levaram à guerra em 1852. Contam historiadores platinos que, nos últimos anos de seu poder, Rosas se convenceu disso e se arrependeu do êrro. Era tarde, entretanto.

A derrota de Rivera em Arroio Grande esfacelara o exército uruguaio, e Oribe, em fevereiro, seguido do general Urquiza, em julho, conduziu sua fôrça invasora com cêrca de 17 000 homens contra Montevidéu, cujo grande assédio se iniciou a 16 de fevereiro de 1843.

Após a reorganização de seus elementos armados, incluindo recrutas bisonhos e a milícia, podia a Banda Oriental pôr em p188linha 6 000 soldados aproximadamente na capital sitiada, e pouco mais ou menos a mesma massa na campanha, sob o comando de Rivera. Em Montevidéu, estava o poder em mão de Joaquim Suárez, presidente do Senado.

119. Repercussão na luta contra os Farrapos. — Para Caxias, no Rio Grande do Sul, todos êsses acontecimentos antes contribuíam em favor da pacificação da província pois representavam o enfraquecimento dos aliados dos rebeldes.

Quando chegou a Pôrto Alegre, assumiu o exercício de suas funções ambas, a presidência da província e o comando das armas. Em poder dos revoltosos se achava, a bem dizer, um têrço do território dessa circunscrição; a cavalaria revoltosa enviava suas partidas por tôda parte: ocupavam Caçapava, Piratini, Alegrete e mais algumas pequenas cidades do interior. Dois terços acatavam a autoridade do Império, aí incluído o litoral.

A modalidade da campanha era a luta das cavalarias, e, nisso, os insurretos tinham a melhor, pois dispunham de tantos cavalos quantos quisessem e agiam na região onde predominava êste gênero de criação. Quanto a abastecimentos, seus aliados uruguaios, Rivera e seus companheiros, forneciam‑lhes munições, víveres e mesmo tropas de eqüinos, quando êstes se tornavam precisos. Em compensação, do Rio Grande iam voluntários brasileiros servir mesmo fora das fronteiras, e artilharia era fornecida às fôrças de Rivera. Além disso, os tratados existentes entre êsses aliados vedavam qualquer auxílio dado ao Império pelo caudilho uruguaio. O essencial para os republicanos rio‑grandenses era a mobilidade de sua cavalaria; contavam cêrca de 6 000 homens, e poderiam sempre dispor de 20 000 cavalos.

O nôvo comandante em chefe chegava em momento crítico da campanha: assumindo seu cargo a 9 de novembro de 1842, menos de um mês depois o desastre de Arroio Grande havia arruinado, pelo menos temporàriamente, os elementos de Rivera. A invasão do Uruguai pelo exército de Oribe podia ser um ensejo de cortar os reabastecimentos feitos aos Farrapos por seu colaborador Rivera, que era inimigo do general uruguaio a serviço de Rosas. Uma grande dificuldade, entretanto, deveria ser prèviamente arredada: a política internacional do Brasil era invariável, p189e levava a apoiar e auxiliar os governos legais, e, para nós, o govêrno legal do Uruguai era Rivera, ou seus representantes na Banda Oriental. Com Oribe, portanto, era impossível entendermo‑nos, desde que se mantivesse no pressuposto de poder uruguaio. Mas Oribe agia como general argentino, obedecendo ao ditador da Confederação, e com êste, sim, reconhecido pelo govêrno do Rio legítimo detentor da autoridade no Prata, era normal e lógico entrarmos em negociações.

Esta rota foi a que Caxias recomendou ao gabinete imperial; êste, aliás, pensava do mesmo modo, e ordenou aos nossos diplomatas agirem nesse mesmo rumo. Era, por outro lado, servir a Rosas e a Oribe, pois do Rio Grande, em virtude dos acôrdos existentes, iam soldados e canhões fortalecer Rivera. Assim, por essa conjunção de interêsses, após curto prazo, se interverteram as posições: Corrientes, sob o govêrno de D. Joaquim Madariaga, e em obediência a ordens de Buenos Aires, passou a vender cavalhada para as tropas imperiais, a desarmar rebeldes que se refugiassem à margem direita do Rio da Prata ou do Uruguai, fugindo à perseguição das fôrças legais ou invadindo o território argentino.

No Uruguai, a princípio, foi a tarefa mais difícil, pois D. Frutuoso conservava sua posição e mantinha o território ocupado por êle contra os blancos, partidários da Oribe. Mas em julho de 1843, Urquiza atravessou os rios e invadiu a antiga Cisplatina, a juntar‑se ao exército de Oribe; Rivera viu‑se forçado a retirar ante a predominância das colunas de seu adversário, até que em março de 1845 foi destroçado em Índia Muerta, e obrigado a fugir para o Rio Grande.

Durante os anos de 1843 e de 1844, a maior parte da pequena República estando sob o domínio efetivo de Oribe e de Urquiza, Caxias viu‑se em condições de remontar sua cavalaria.

120. Plano de Caxias. — Desde o primeiro instante de seu comando, o barão haviam formado seu plano: agir com energia, mas tendo sempre em vista a pacificação real da província; estancar tôdas as fontes de abastecimento dos revoltosos, sitas nas repúblicas platinas e favoráveis aos insurgentes rio‑grandenses; tirar o máximo dêsses recursos em favor das tropas legais; comprar p190sua remonta nos territórios fronteiros da Confederação. Êsses dois pontos capitais de seu plano, êle os conseguiu realizar por meio de entendimentos oficiais entre Rio e Buenos Aires, e ordens dadas a Oribe pelo ditador.

Destarte, combateu a revolução com as próprias armas desta, fôrça montada, abundância de cavalos, perseguição sem trégua que não permitisse o ajuntamento de colunas numerosas. A isto êle próprio acrescentava seu valor pessoal, um comando mais esclarecido e previdente, capacidade técnica maior, senso mais agudo da tática e da estratégia, prestígio inigualável. Finalmente, os republicanos não possuíam infantaria digna de menção, e sua artilharia era somenos e mal servida, incapaz de conquistar êxitos perduradouros ou de manter triunfos transitórios. Em ambos os casos, Caxias tinha a superioridade e dela estava consciente. Também, sabia usar de tais vantagens.

Bento Manuel, o único general do Império que havia constantemente batido os rebeldes até que aderisse à revolta, por despique, em 1837, estava arrependido de sua deserção; havia pùblicamente manifestado sua nova orientação, pedindo anistia e retomando serviço nas fileiras legais. Cooperava eficazmente com o general em chefe. Tanto se impôs por seus esforços e justificou a confiança novamente posta nêle, que fôra pôsto à frente da coluna mais importante do exército de Caxias, quase contando o dôbro da que o próprio barão comandava.

Dilacerados por dissensões internas, os republicanos encontravam‑se em posição desesperadora; não podiam mais resistir; escasseavam‑lhes o entusiasmo e a energia dos primeiros anos da guerra civil.

Em 1843, perderam a posse permanente das cidades e das povoações que dantes haviam ocupado e viram‑se forçados a peregrinar pelas coxilhas com um ou outro pouso, quase sempre pontilhados por combates em que não tinham a melhor, por via de regra. Escasseavam os víveres e outros abastecimentos, cercados que eram pelas colunas de Caxias; a fé em sua causa gradualmente desaparecia e se extinguia.

Em 1844, sentiram‑se definitivamente vencidos por uma direção da campanha tão ativa, perseguidora e incessante. Caxias não lhes dava tréguas, nem descanso. Incapazes de fazerem p191frente para resistir, não logravam reunir‑se, e apenas conseguiam vaguear pelas campinas, em grupos de 30 e 40 cavaleiros com as lanças imperiais a ameaçarem‑lhes as costas.

121. Pacificação do Rio Grande do Sul. — Desalentados por completo, começaram a solicitar a anistia, sem grande sinceridade a princípio, mas de modo cada vez mais insistente e cordial à medida que as provas de sua derrota se ostentavam e se multiplicavam, por forma indiscutível.

Nôvo sentimento estava fazendo caminho em suas almas: os sucessos platinos prenunciavam graves desentendimentos e choques de interêsses entre o Brasil e a Argentina. Mais uma vez, na frase inglêsa, se provava que o sangue é mais espêsso do que a água: apesar de quanto se dissera e publicara contra o Império durante a revolução, ainda assim era a Pátria comum, a ser agredida ou ameaçada pelo estrangeiro.

Finalmente, êles pronunciaram a palavra definitiva sôbre êsse conflito sentimental, quando a 28 de fevereiro - 1o de março de 1845 se assinou a paz e se reintegrou o Rio Grande na unidade majestosa do Brasil.

122. Prenúncios de lutas no Prata. — De fato, dias sombrios e de luto estavam em reserva para o Império, e prenúncios das dificuldades porvindouras acumulavam‑se ante os guias do país.

O tráfico, como veremos, estava causando fundo alarma, e um estado extremamente tenso de relações havia surgido para com a Grã-Bretanha. Pendiam sôbre o país graves preocupações. Os levantes liberais de São Paulo e de Minas Gerais, embora esmagados, tinham deixado germes de revolta; o partido liberal era tido como uma fôrça insurgente em potência. Os próprios rebeldes do Sul só haviam capitulado após consulta feita a seus correligionários do Rio, dêles tendo ouvido que só lhes restava um caminho a seguir: abandonar a resistência e submeter‑se. As dobras de porvir ainda escondiam as possibilidades da revolta de Pernambuco, em 1848.

O mais grave dos receios, contudo, eram as nuvens escuras que pairavam sôbre o estuário do Prata.

Tanto em Buenos Aires como em Montevidéu, residiam agentes diplomáticos brasileiros, que informavam o govêrno sôbre o p192que ocorria nessas regiões. Mas mudavam ràpidamente as condições do meio. As exigências anglo-francesas a ambas as repúblicas platinas iam se tornando cada vez mais ásperas, complicadas e ameaçadas. A paz não podia ser problema indiferente ao Império vizinho.

O tratado de 1843, promovido pelo govêrno argentino e que Rosas recusava, pela negação do dever moral de o ratificar, tratado redigido por plenipotenciários e aceito pelo Imperador, fôra um raio de luz. Rosas queria ofender D. Pedro II com tal gesto de insulto; valia semelhante atitude como revelação de sua hostilidade ao Brasil e ao Império. Qualquer centelha no Rio da Prata podia pôr fôgo à mina já carregada e provocar uma explosão generalizada.

123. Missão Sinimbu. — Cansansão de Sinimbu foi enviado em missão especial, em meados de 1843, para observar os acontecimentos e preparar as medidas preventivas de um ataque inopinado que poderia sacrificar a grande monarquia oriental.

Sua missão nada tinha de fácil. A política do Brasil não variara de sua norma tradicional: não intervir em negócios internos alheios ao Império; na Argentina, mantinha relações com Rosas: em Montevidéu, fazia o mesmo após a renúncia legal de Oribe ao cargo de Presidente da República. Agora, Rosas, pelos motivos já citados, dera origem ao nôvo dissídio, fazendo de Oribe a vítima de uma renúncia forçada, não voluntária, e a pedido dêste; em atitude pouco defensável, pretendia ser dever seu dar tropas e recursos a êsse último, para o reinstalar no poder.

Nem sobra de argumento legal poderia ser alegado para justificar tal pretensão. Haviam decorrido mais de cinco anos desde sua retirada de Montevidéu; eleições já tinham sido processadas e todos as reconheciam por válidas; tôdas as nações mantinham relações com as novas autoridades, exceção feita da Confederação. Assim procediam a Inglaterra, a França e o Brasil.

Os fatos ocorrentes, entretanto, apresentavam feição especial: enquanto no Uruguai o Império, com absoluta correção, reconhecia a situação vigente e legal das coisas, Rivera, às ocultas, protegia e auxiliava os rebeldes do Rio Grande. Para os combater e vencer, Caxias pediu e o Gabinete do Rio obteve, a neutralidade de Rosas. Oribe, pela obediência às ordens de Buenos p193Aires, general e agente que era da Argentina, muito mais do que patriota uruguaio e político nessa República, candidato à sua presidência, Oribe auxiliou as fôrças imperiais por sua neutralidade e pela permissão concedida então para serem vendidos às fôrças de Caxias gêneros e cavalos. Na capital assediada, portanto, a posição brasileira era altamente espinhosa: oficialmente, tinha por dever reconhecer e amparar as autoridades constituídas; por outro lado, grato a seus adversários, as tropas sitiantes de Rosas e de Oribe, tinha de reconhecer que a correta atitude destas contribuía para a extinção da tumultuária vida interna do Rio Grande.

O desejo real do Império, como provam todos os documentos, mesmo os mais confidenciais, dos arquivos nossos, era garantir de fato a independência do Uruguai, conforme a obrigação imposta pelo tratado de 1828, e ver essa República pacificada, sob um govêrno aceito pela massa geral da população, em vez de a ver dilacerada e desgraçada pelos horrores da guerra civil. Tanto mais quanto, no Rio Grande, os conflitos fronteiriços tinham repercussão enorme, e significavam manter‑se ao longo da linha um estado permanente de inquietação, de incursões devastadoras, de roubos de gado e de colheitas, e desrespeito à vida humana.

Má, em conseqüência do conflito dos ideais políticos, era isso uma oposição à meta inspiradora de Rosas: reanexar o Uruguai e, mais tarde, o Paraguai, à Confederação, para se reconstituir o vice‑reinado do Prata.

Não tencionava Oribe destruir a capital, visando êle sòmente reduzi‑la pela fome. Absteve‑se de a bombardear, e deu igual ordem à esquadra argentina. O comodoro Purvis, que comandava a esquadra inglêsa, não consentiu que se combatesse nas águas da cidade, e foi apoiado nessa resolução pelos ministros da Inglaterra e da França, pois, diziam êles, Montevidéu não estava fortificada e era uma cidade aberta.

Rosas não aceitou tal ponto de vista, e a 1o de abril bloqueou oficialmente o pôrto. Estava no seu direito como beligerante, e finalmente, depois de discussões sem grande fundo, tanto o govêrno inglês como o francês enviaram ordens a suas estações navais para reconhecerem as operações de guerra.

p194 Tal era a situação, quando Cansansão de Sinimbu chegou a seu pôsto. Iniciou suas funções cometendo um êrro, ao declarar que não reconheceria o bloqueio. Logo que no Rio foi conhecida a gaffe, enviaram instruções para a corrigir, ordenando o respeito à ação legal do govêrno argentino; mas o êrro de ofício inicial do diplomata brasileiro já tinha produzido seus efeitos piorando as relações, já tensas, entre os dois países: o nosso ministro em Buenos Aires recebera seus passaportes de Rosas, após uma troca de palavras exaltadas. Cresceu a má vontade entre o Império e a Confederação.

Na realidade, o bloqueio pouco mal fazia a Montevidéu. Não possuía Rosas os elementos técnicos necessários para o tornar efetivo. As fôrças navais estrangeiras não permitiam golpes decisivos. Davam‑se em terra as principais operações, e ainda aí, tudo conspirava para reduzir ao mínimo suas conseqüências em todos os sentidos: Oribe, uruguaio, evitava destruir vidas humanas e as propriedades; a diplomacia européia, por seus representantes locais, tornava difíceis as hostilidades.

124. Missão Abrantes na Europa. Seu malôgro. — O Govêrno Imperial previa longo período de luta, sem alcance quanto ao problema essencial da paz, e estava ansioso pela restauração do sossêgo e da normalidade na bacia do Prata. Assim impunha seus próprios interêsses, pois as perdas comerciais produzidas pela guerra eram sensíveis; era evidente, ademais, que a Europa sofria graves prejuízos com tal situação; finalmente, signatário do tratado de 1828, era dever seu promover a cessação dêsses ponderosos óbices ao desenvolvimento do país, sèriamente ameaçado em sua independência por tais tumultos.

Tais foram os móveis determinantes da missão do Visconde de Abrantes à Europa, em julho de 1844, missão que o levou a Londres e Paris, desde meados de outubro até meados de fevereiro do ano seguinte. Dos papéis confidenciais do Arquivo do Ministério das Relações Exteriores do Brasil consta, e pode ser tido como definitivamente indiscutível, que suas instruções versavam sôbre consultar os dois governos líderes das nações européias interessadas nos problemas do Rio da Prata, no tocante às seguintes bases: 1o, garantir a independência do Uruguai; 2o, a independência do Paraguai; 3o, adotar medidas tendentes a pôr p195fim à guerra entre as duas Repúblicas de Buenos Aires e do Uruguai.

De tal iniciativa resultou que ambos os governos aderiram firmemente aos intuitos do Brasil quanto à necessidade de manter e garantir a independência das duas nações mencionadas; por todos, Rosas era tido como merecedor de encômios por sua administração na Argentina; sua ausência da direção da Confederação seria considerada como abrindo nova era de distúrbios e de caos nesse país. A Grã-Bretanha e a França contendiam pela primazia no comércio platino, bem como pela preponderância de suas respectivas influências, e nenhuma delas confiava na outra. Inclinavam‑se entretanto, se uma intervenção conjunta se decidisse, por fazer de Montevidéu um pôrto franco a tôdas as navegações, e, como conseqüência, firmar o livre uso dos rios do estuário; pela fixação dos limites do Brasil, a fim de conter Rosas em Buenos Aires, se êle se rendesse à razão sem luta, ou por fazer de Corrientes e de Entre Rios um nôvo Estado independente, se Rosas se mostrasse combativo e fôsse vencido. Para com o Brasil, suas disposições eram favoráveis, em seu conjunto, sem que revelassem nenhum entusiasmo peculiar por incorrerem em riscos por causa do Império.

Quanto aos meios de realizar tal programa, nenhum dos dois gabinetes sentia propensão de se envolver em lutas em terra, se as coisas chegassem à guerra; limitar‑se‑iam a remeter fôrças navais; se qualquer ação terrestre se tornasse precisa, pesaria o esfôrço sôbre o Brasil, caso êste govêrno fôsse convidado a juntar‑se à intervenção.

Ponderadas as circunstâncias, era tal diretiva profundamente inconveniente, pois a tarefa mais áspera, difícil, dispendiosa e arriscada seria precisamente a campanha em terra, e os ônus dela recairiam sôbre o Império. Tal razão levava Abrantes a julgar inteiramente inaceitável a proposta eventual, e, mais tarde, com êsse parecer se manifestou acorde o ministério brasileiro.

Além do que, era tal intervenção tripartida possível ou desejável? Sim, dizia Paris. Não, respondia Londres.

Ao ser consultado pelo emissário do Império, Aberdeen respondeu com franqueza absoluta, embora suas palavras soassem rudes. Por duas vêzes, a Inglaterra havia proposto sua mediação p196a Rosas, e êste recusara: uma terceira recusa era tida por pouco desejável. Quanto a um programa de ação conjunta, pensava o govêrno de Sua Majestade Britânica que seria imprudente entrar em acôrdo com o Brasil, pois a primeira condição de tal política seria um entendimento perfeito e constante entre os dois gabinetes, e com pesar via a Inglaterra que tal coisa não existia.

Clara, a alusão às dificuldades decorrentes do tráfico, e do tratado de aliança que se estudava e discutia no Rio de Janeiro. Por amor à verdade, é dever confessar que o senso de honestidade internacional, de direito e de humanidade, se achava do lado da Inglaterra, por mais grosseiros, extemporâneos e vazios de real conhecimento das condições internas da situação do país, se revelassem seus argumentos e os atos britânicos. Isto, porém, será estudado mais tarde.

Os autores platinos apontam para tal recusa de colaboração como prova de desconfiança européia quanto aos alvos imperiais no desdobrar dos acontecimentos no Rio da Prata. É um equívoco, pois nenhum desacôrdo houve quanto às soluções propostas. O que se encontrava à base da resposta era exclusivamente a demora em extinguir o tráfico negreiro, o melindroso estado das relações entre os dois governos, tensas quase até o ponto de rutura.

A conseqüência da missão foi a neutralidade absoluta do Brasil, que de tudo se manteve afastado, que se referisse à intervenção anglo-francesa. Tanto mais fácil seria ao Império firmar‑se nessa posição, quanto nesse mesmo ano de 1845 a revolução rio‑grandense foi dominada, e se tornaram mais severas e restringentes as operações dos cruzadores prepostos à repressão do contrabando de escravos, o que provocou grita maior e indignação mais acesa par parte dos brasileiros, e agravou, se possível, as hostilidades do ambiente diplomático entre Londres e Rio.

125. Insucesso da tentativa anglo-francesa de mediação. — O modo por que fôra planejada a intervenção entre Guizot e Palmerston, condenava‑a a um insucesso ridículo. A vida da Argentina e suas perspectivas econômicas ainda não tinham ultrapassado, de modo ponderável, suas fronteiras locais; qualquer pressão naval poderia ser, portanto, um empecilho, nunca um golpe mortal. Tal, sòmente se poderia dar por terra, e a ausência do Império, p197na operação constrangedora, significava apenas a niilidade de valia de tôdas essas ostentações marítimas e belicosas.

Na fronteira rio‑grandense, a pressão diminuía. Fôra assinada a paz. Rivera, amigo e protetor dos Farrapos, sofrera a derrota decisiva de Índia Muerta, a 27 de março de 1845, e fugira para o Brasil, onde pretendera agir como mediador entre os partidos locais. Caxias, que conhecia e desconfiava do homem, com palavras pomposas e altissonantes buscou librar‑se dêle, aconselhando‑lhe ir ao Rio; mas, aqui, o detiveram a pedido do govêrno Uruguai. Decorria tal providência de pedido formal feito ao gabinete imperial para que não deixasse D. Frutuoso voltar a Montevidéu, tão impolítica poderia parecer tal aventura. Era quase um decreto de proscrição, acrescenta um escritor uruguaio.

Começou, em julho de 1845, a intervenção franco-inglêsa, após certa demora em tentar durante algumas semanas chegar a um acôrdo direto de paz. Falhando a esperança de êxito em tais negociações, só permanecia aberto o caminho das armas aos diplomatas europeus Ouseley e Deffaudis. Nenhum sucesso lograram, a não ser grupar mais estreitamente em tôrno de Rosas a população argentina. Por tôda Europa e pela América inteira, as simpatias estavam ao lado do ditador. Assim também no Brasil, pois a intervenção planejada por Abrantes e pelo gabinete era de caráter inteiramente diverso. Baseando‑se, embora, na fôrça, era o seu alvo pôr fim a uma fase de tumultos, sem tocar nem perturbar Buenos Aires em sua situação política, nem sequer modificar direitos reclamados pela Confederação como pertencentes à sua soberania territorial. Ao tomarem violentamente posse dos rios, a Inglaterra e a França cometiam grave infração nos direitos investidos substancialmente no govêrno de Buenos Aires, e poder de controlar navegação interior; e não poderia tal falta deixar de ser considerada como ato de agressão. Ao invés disso, a projetada e mangrada intervenção tripartida só almejava ser um ato enérgico, se fôsse necessário, de restauração de sossêgo a uma região perturbada e talada pela guerra.

Como estava sendo conduzida, a intervenção não levava para parte alguma, e tanto Ouseley como Deffaudis se mostravam ridìculamente ineficientes.

Nôvo emissário foi mandado para o Prata. Hood, amigo pessoal de Rosas, levando como tarefa aplainar as dificuldades e p198obter uma noção real sôbre as idéias do ditador. Era um passo em rumo da aceitação das condições de D. Juán Manuel, e deixava em situação penosa as autoridades legais de Montevidéu. Tal incumbência foi repelida pelos dois diplomatas, que recambiaram para Londres o nôvo agente.

Corria o tempo. Novos ministros vinham da Europa, em maio de 1847, para se alterarem os têrmos do acôrdo dirimente da questão: foram lorde Howden e o conde Colonna Walewski. Sua gestão, em vez de obedecer a um propósito uno, logo divergiu, refletindo as diferenças de pensamentos existentes entre Londres e Paris, cada ministro seguindo as inspirações do seu próprio país. Finalmente, um armistício foi assinado entre os plenipotenciários e Oribe, mas as autoridades de Montevidéu o repeliram. Howden ordenou à esquadra britânica para suspender o bloqueio, enquanto a França permanecia na posição anterior, bloqueando os portos argentinos, e mantendo Walewski relações com os refugiados unitários de Montevidéu; ao retirar‑se Howden, exerceu o francês verdadeiro protetorado, ao qual faltava apenas o nome oficial, sôbre o govêrno legal da capital uruguaia.

Em março de 1848, nova missão chegou, chefiada pelo barão Gros e Robert Gore, respectivamente por parte da França e da Grã-Bretanha. No desempenho de suas incumbências, desconheceram a existência de Rosas, e trataram apenas com Oribe e as autoridades de Montevidéu sob a presidência de D. Joaquín Suárez.

Um incidente pode ser citado aqui, para mostrar quanto o pretendente ao govêrno uruguaio se achava dependência absoluta de Rosas: Oribe havia exigido a capitulação da capital; de Buenos Aires vieram ordens para continuar o assédio; o general, então, exautorando a própria palavra, obedeceu à intimação do ditador. Talvez viesse a ser êste o golpe mais forte desferido contra suas próprias pretensões, pois evidenciava que não era um uruguaio autônomo, mas um simples soldado da Argentina no séqüito da Confederação.

De fato, todos estavam cansados e exaustos pela guerra interminável, mas semelhante capitulação de Oribe, ao mesmo tempo que o enfraquecimento, dava nôvo alento a D. Joaquín Suárez e seus aderentes. O esquadrão naval francês suspendeu o bloqueio; p199em maio de 1848, a missão última retirou‑se inglòriamente. Tropas de marinha francesa, entretanto, continuaram em Montevidéu, e seu chefe, o almirante Leprédour, recebeu ordens de Paris, em 1849, para reatar as negociações. Celebrou, então, tratados com Rosas e Oribe, sacrificando o Uruguai; mas o Parlamento francês os desaprovou. Novamente, Leprédour negociou, e, como prova de simpatia pelos defensores franceses de uma política de fôrça, enviou à capital assediada um refôrço de 1 500 homens. D. Joaquín Suárez nem sequer tivera menção do que estava ocorrendo. Fácil é deduzir quanto se achava abandonada a causa dos colorados uruguaios.

126. Posição dominadora de Rosas, no Prata. — Para Rosas, a resistência que havia oposto lhe granjeara popularidade quase unânime em seu país. Mesmo da França, um dos principais heróis, talvez quiçá o mais notável, da epopéia da Independência argentina, o general San Martin, escrevia‑lhe aplaudindo sua conduta e oferecendo seus serviços. A Grã-Bretanha estava mudando e tendia pôr‑se ao lado da Argentina, enquanto a França, inteiramente às tontas e impotente no Rio da Prata, era alvo de motejos gerais.

Nem podia ser de outra forma, e era conseqüência de suas hesitações: desejosa de intervir, e pondo de lado os meios próprios para tal fim. Gradualmente, em Paris mesmo, essa longínqua expedição estava se tornando tediosa e bulia com os nervos da opinião pública. Publicistas, como St. Marc Girardin, em artigos largamente divulgados e de pêso real nos meios políticos, mostravam quanto era injusto e egoísta o desenvolver de tal orientação. Thiers e seus amigos esforçavam‑se por que se remetesse uma verdadeira expedição militar, com todos os recursos precisos.

A revolução de 1848 e o nôvo govêrno que ela fundou deram o passo decisivo para arruinar os planos intervencionistas. Na América também, entretanto, fatôres novos iam influindo nos acontecimentos.

O Brasil não se movera de sua posição neutral. Haviam cessado os distúrbios internos, embora as relações tensíssimas com a Inglaterra, em conseqüência da política de violências e de superioridade de recursos de todo gênero ordenada por Palmerston p200e Aberdeen, lhe desse trabalho demais para que pudesse tirar os olhos de tais dificuldades, para lançar fôrças na caldeira de tumultos do Prata. Tal situação havia sido prevista pelos governos do Império, mas êste, cuidadoso e com visão alongada e segura, abstivera‑se de qualquer intervenção que bulisse no vespeiro. Não deixava de ficar atento, entretanto, e de seguir com interêsse vital o desenrolar dos sucessos.

No Rio Grande, os conflitos partidários haviam cessado, desde a pacificação. Em 1848, entretanto, em Pernambuco surgiu um motim, a chamada revolução praieira, sem alvo nem ideal, mera explosão de despeito partidário, por haver certo grupo político decaído das boas graças governamentais.

127. Pacificação definitiva do Império. União nacional contra a ameaça platina. — Estava definitivamente fechada a era das revoluções e das insurreições. Constituíam tais movimentos coisas do passado, bem morto. Meio século havia de decorrer, antes que impulso nôvo, trazido pela propaganda republicana, provocasse a queda da monarquia, em 1889.

Na quinta década do século, acumulavam‑se no Rio da Prata signos precursores de tempestade. Os jornais de Rosas acusavam, insultavam e ameaçavam o Brasil. O incidente com Duarte da Ponte Ribeiro, nosso ministro em Buenos Aires, a propósito da recusa de Sinimbu de reconhecer o bloqueio argentino de Montevidéu, em setembro de 1843, causara a remessa de passaportes ao diplomata brasileiro. De ambos os lados, queixas amargas se ouviam e os ânimos manifestavam sua hostilidade.

A missão Abrantes exacerbara a excitação reinante, pois em Buenos Aires era tida como ponto de partida da intervenção anglo-francesa, apesar da diferença essencial entre os alvos do Brasil, restauradores da ordem, e a rota seguida pelas potências européias. Além do que, era olvidado que a intervenção destas últimas já estava decidida, quando Abrantes chegara ao Velho Mundo e consultara os governos interessados.

Quando, em 1847, se tornou conhecido o Memorandum de Abrantes e Aberdeen, o representante da Confederação no Rio, o general D. Tomás Guido, interpelou o gabinete sôbre os têrmos e as conclusões dêsse documento. A resposta oficial expôs p201os motivos pelos quais o govêrno considerava Oribe um intruso na administração uruguaia, e desejava, com intenso interêsse próprio, ver terminada a guerra civil na fronteira do Rio Grande. Não se tratava de uma política agressiva: o govêrno do Uruguai propunha uma aliança ofensiva e, entretanto, o Império a declinava, precisamente porque ela conduziria à guerra, que o Brasil não desejava por modo nenhum. E por isso se mantinha estritamente neutro.

Agora, começaram a intervir fatôres de natureza econômica. As fôrças de Oribe viviam a invadir as terras rio‑grandenses, roubando gados, matando ou aleijando gente, quer fazendeiros quer peões de estâncias. Não era uma atividade somenos: em 1850, dizia‑se correntemente que andavam por umas 800 000 cabeças os rebanhos roubados, em uma área de 600 léguas quadradas. Assaltos à mão armada eram levados a efeito em larga escala, e as leis de Oribe sôbre marcas de gado tornavam quase impossível o reconhecimento da propriedade legítima das reses e a prova do roubo.

O Gabinete Imperial dirigiu uma representação ao Uruguai para serem modificadas tais leis, mas encontrou repulsas; ainda com esta, se acrescentavam protestos contra imaginárias invasões na Banda Oriental por supostos ladrões de gado brasileiro. De fato, haviam tido lugar incursões no território estrangeiro: os donos das manadas dizimadas haviam se reunido, organizado em bando armado e partido a reaver sua propriedade furtada e a bater os ladrões. Era seu chefe o coronel Francisco Pedro de Abreu, barão de Jacuí, um dos melhores comandantes de colunas de Caxias na última revolução rio‑grandense. Tudo isso era notório, e objeto de debate comum e de discussão nas Assembléias locais, e mesmo no Parlamento. A opinião pública estava identificada com tal reação natural das vítimas dos desregramentos fronteiriços.

Ainda a espicaçar o sentimento nacional a grau mais intenso de sensibilidade, o ministro da Argentina, obedecendo a ordens estritas de Rosas, avançava pretensões a representar Oribe e o Uruguai nessas gestões diplomáticas.

Cumprindo seu dever evidente, e de acôrdo com a lei internacional, o Gabinete do Rio negou‑se a tal exigência. O diplomata, p202D. Tomás Guido, exigiu então seus passaportes, e as relações entre os dois países suspenderam‑se a 30 de setembro de 1850.

128. O choque. — Havia soado a hora do terrível choque entre as duas correntes.

O Império estava longe do preparo indispensável para uma campanha dêsse gênero. Inda assim, de há muito previra o temporal que se avizinhava, e tomara as medidas mais urgentes para se precaver. Entre estas, figurava colocar o Rio Grande em pé de guerra, 16 000 homens, a princípio, em 1851, e progressivamente elevando tal efetivo a 24 000 soldados em 1852. Na orientação do Império, tais decisões tinham de obedecer a duas considerações convergentes: a proteção própria, no Rio Grande; a proteção da Independência do Uruguai, de acôrdo com o tratado de 1828.

Muitas e repetidas vêzes o Brasil fôra solicitado para intervir no Prata, mas tinha‑se mantido neutro durante anos até que a tarefa cruenta se tornasse inevitável.

As maiores e mais importantes alterações nessa delicadíssima situação, porém, ocorriam na Argentina.

A terrível vida de Rosas, trabalhos incessantes e intervenção pessoal em todos os serviços e seus detalhes mais ínfimos, estavam paulatinamente minando as energias extraordinárias dêsse notável argentino. Chefe do Estado desde 1831, quase vinte anos de labor ininterrúpto, com todos os nervos tensos ao último limite e tôdas as fibras a vibrarem sob retesamento inominável, haviam produzido a ruína daquele organismo incomparável; e pouco valia a evidência do quanto êste superava o nível normal de seus contemporâneos. Nenhum corpo, nenhum espírito, sofria incólume as exigências sôbre-humanas de encargos tão acabrunhadores.

Seus biógrafos mais amigos apontam para o ano de 1848 como data crítica, na qual se revelaram os primeiros sinais de enfraquecimento e de desabar do seu privilegiado temperamento. Na realidade, quem poderia dominar e reger os negócios públicos, em período tão temeroso, em meio de paixões tão destrutivas, a se combaterem em uma luta que significava vida ou morte para p203os contendores, e isto sem que se ferissem e aniquilassem violentamente interêsse de todo o gênero? Quem lograria governar, em dias tais, sem fazer inimigos, alguns, por vêzes, mortais? Enquanto o sangue ferve, no ardor da pugna, não se sentem as feridas nem os golpes; sòmente surge e se faz ouvir a dor, quando esfria o combate e sossega o corpo.

Não permitia êle divergências e dissídios internos em seu próprio partido, enquanto não passasse o perigo. Já existiam, entretanto, pessoas que pensavam, sem ousarem manifestar seu parecer, que já durava demais a ditadura de Rosas.

129. Urquiza. — Aí opinavam Corrientes e Entre Rios, ou antes, o general D. Justo José de Urquiza, seu chefe prestigioso, julgava oportuna uma mudança. Era êle um dos melhores generais do ditador, dos mais destemidos e inteligentes; não alimentava, como seu superior, aquêle ódio implacável contra os adversários, que fazia de Rosas o mais temido dos homens.

Após a derrota de Rivera em Índia Muerta, em março de 1846, Urquiza havia atravessado o Uruguai para combater o exército correntino. Em um dos primeiros recontros, um dos chefes locais, da família Madariaga, caiu em suas mãos; por seu intermédio, o general entrou em relações com o irmão do prisioneiro, D. Joaquín, que governava a província. Daí resultou se celebrarem, contra ordens expressas de Rosas, dois tratados, um público e outro secreto, pondo Corrientes sob a direção de Buenos Aires, o primeiro, e firmando neutralidade de Corrientes para com o Uruguai, o segundo.

Sòmente o acôrdo público foi submetido ao conhecimento e à decisão do ditador. Foi redondamente repelido por êste, que exigiu rendição incondicional de seus adversários.

No mesmo ano, em novembro, Urquiza foi consultado pelo govêrno de Montevidéu sôbre se aceitaria mediar entre os beligerantes. Anuiu ao convite, mas em dezembro Rosas declinou de tôda e qualquer tentativa em tal rumo, dizendo que o governador de Entre Rios havia cometido um grande êrro.

Nenhum recurso restava, pois, senão o de combater Corrientes. Meado 1847, romperam as hostilidades, que terminaram pela derrota completa das fôrças provinciais, em Vences. Urquiza p204ainda se não sentia com o poder de seguir sua orientação própria, e via‑se constrangido a seguir as ordens desapiedadas de Rosas.

Montevidéu, entretanto, insistia. Fôra bem escolhido o momento. Entre Rios estava se desenvolvendo, e suas exportações iam começando pelo único pôrto deixado aberto pelo ditador, Rosário de Santa Fé. Em agôsto de 1847, Rosas ordenou seu fechamento, e impôs Buenos Aires como única saída legal para os produces de Entre Rios. Dois anos depois, proibiu a remessa de numerário às províncias, pois havia resolvido concentrar todo o meio circulante na capital da Confederação.

A efervescência do sentimento local ia intensa, em 1849, e ainda se exacerbou nos meses seguintes. O ponto culminante da indignação foi atingido em abril de 1851, quando os jornais de Urquiza retiraram de seus cabeçalhos o cruel mote argentino "Muerte a los salvajes unitarios", e apelidaram para a paz e a conciliação.

A resposta de Rosas foi fulminante: "Anarquistas", exclamou êle.

Mas o apêlo entre-riano havia ecoado no coração e no cérebro de todos os pensadores platinos. Em Montevidéu, a mesma política era apregoada pela imprensa. No Brasil, representava a essência do pensamento do Gabinete Imperial. De acôrdo com ela, Andrés Lamas, ministro do Uruguai no Rio, e um dos mais notáveis paladinos nessa cruzada, formulava o lábaro da campanha: "nem vencedores, nem vencidos, entre uruguaios."

130. Véspera de guerra. — Começaram a precipitar‑se os acontecimentos. A 29 de maio de 1851, em Montevidéu, foi tratada a aliança Entre Rios, Corrientes, Uruguai e Brasil; desde 25 de dezembro de 1850, existia um tratado entre o Paraguai e o Brasil, firmando a livre navegação do rio Paraná, que Rosas não permitia quanto aos trechos argentinos.

Uruguai achava‑se esgotado de recursos, quer de dinheiro quer de armas e de munições. Através de Irineu Evangelista de Sousa, mais tarde Barão e Visconde de Mauá, um dos pró-homens do Brasil, o Gabinete Imperial emprestou as somas necessárias à pequena República, para comprar armamentos e pagar p205às tropas. Em Paris, espalhou‑se a notícia da feição nova tomada pelos negócios do Rio da Prata. Logo se pôs fim às malfadadas negociações do almirante Leprédour.

A Aliança e seus fins, os alvos de anistia fraternal às ofensas recíprocas, produziram efeito tão fulminante, que, ao apêlo de Urquiza, os próprios soldados de Oribe atenderam à maravilhosa invocação de solidariedade nacional e internacional; o exército blanco começou a dissolver‑se, evanescer e paralisar ante a invasão aliada. Não foi preciso combater; haviam as palavras achado eco nos corações de todos os uruguaios, e, dentro em breve, viu‑se Oribe à frente de um mero núcleo de tropas argentinas, incapazes de lutar.

Como de justiça, o Uruguai teria de guiar a campanha, e o general em chefe, o general Eugénio Garzón, foi nomeado, sendo um blanco insuspeito a todo o país, como penhor de reconciliação. Por mal de todos, faleceu em dezembro, e a direção recaiu sôbre Urquiza.

A 19 de julho de 1851, foi iniciada a travessia do rio Uruguai. Depois de certas hesitações, a 8 de outubro Oribe capitulou sem combate: como o sustentaria êle, se não mais possuía exército? O acôrdo celebrado era realmente digno e nobre e nêle percorria um frêmito de pensamento de alta fraternidade. Reconhecia‑se a boa fé de ambos os contendores; Oribe reconhecia sua própria derrota, e colocava, a si e seus partidários, sob o amparo e proteção das autoridades legais da República, convencidos todos de que se tratava de uma era nova e de um nôvo caminhar para a frente, coletivo, na vida institucional.

Tais eram os votos, pelo menos. Tão fundo era o sentimento de paz e de mútua indulgência e de perdão recíproco, que Oribe e sua família permaneceram, sem sofrer o menor constrangimento, em sua propriedade de Paso del Molino, nas vizinhanças de Montevidéu.

131. Invasão da Argentina pelos aliados. Vitória de Monte Caseros. — Chegou agora a fase segunda da guerra, tão pouco cruenta até êsse momento. Fôrças conjuntas do Uruguai, Entre Rios, Corrientes e Brasil, invadiram a Confederação, em coluna numerando cêrca de 28 000 homens aproximadamente.

p206 Não cessou, contudo, a dissolução da defesa de Rosas. Era a prova do quanto era artificial seu sistema nas relações exteriores da Confederação, e de quanto as populações se sentiam cansadas de contínuas guerras, e da severidade de seu govêrno. Batalhões e esquadrões dispersaram‑se; alguns bandearam‑se para Urquiza, mas, cumpre salientar, umas poucas fôrças comandadas até então por Oribe e que o governador de Entre Rios tinha tomado sob seu comando próprio, fizeram ato de patriotismo, voltando novamente para o serviço da Argentina.

Meado janeiro de 1852, começou a invasão da Argentina. A 3 de fevereiro, feriu‑se a batalha decisiva de Monte Caseros, nas vizinhanças de Buenos Aires. Definitivamente vencido, Rosas refugiou‑se na capital, resignou seu cargo oficial, e, sob a proteção da bandeira inglêsa e do ministro britânico Robert Gore, exilou‑se voluntàriamente para Londres.

A principal, não a única verdadeira causa dos tumultos platinos, ficava assim removida do teatro dos acontecimentos. Havia sido atingido o equilíbrio dos podêres. Novas perspectivas podiam abrir‑se às Nações ribeirinhas do formidável caudal.


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Página atualizada: 4 Out 13